Omaha | 2025
Um road movie de introspecção e muita dor
O diretor ianque Cole Webley estreia na direção de longas-metragens com um road movie enxuto, poderoso e muito comovente. Com o roteiro de Robert Machoian, o filme protagonizado por John Magaro é contido, onde boa parte dos sentimentos que evoca (sobretudo em sua primeira parte) advém do silêncio e de olhares pesarosos de seus personagens.
O filme inicia-se com um pai acordando seus filhos e indicando a eles, mesmo em um horário não ortodoxo da manhã, que precisam fazer as malas e iniciar uma viagem. Contudo, toda a atmosfera daquele “chamado” inesperado já revela que a viagem não será divertida e prazerosa. Pelo contrário, uma vez que, após essa fuga açodada, é revelado ao público que a casa estava sendo hipotecada e, inclusive, policiais já estavam no local.
A partir daí, Omaha vira um autêntico road movie, em que o pai (Magaro), com seus filhos Ella (Molly Belle Wright) e Charlie (Wyatt Solis), acompanhados de seu cachorro de estimação, saem em direção a uma longa estrada, sem que se diga claramente para onde estão indo, sendo essa informação do destino final apenas do conhecimento do pai (cujo nome não é revelado). A ausência da mãe chama atenção, no que o roteiro, sucintamente, indica que o pai é viúvo.
Há uma profunda tristeza velada naquela viagem e, ainda assim, cumplicidade entre pai e filhos, sobretudo a partir de Ella (Molly Belle Wright) que, mesmo sendo criança, percebe a gravidade suspensa daquilo que ainda está por ocorrer e, ainda assim, mostra-se muito dedicada a ser um porto seguro para seu pai (cujo nome não é trazido no longa-metragem) e apoiá-lo, tentando enxergar o melhor mesmo diante de circunstâncias turbulentas.
É bonito perceber que as crianças ainda tentam ressignificar a situação em busca de uma felicidade genuína e que resistiria aos percalços. Chama atenção que, na viagem, as crianças não usam smartphones e buscam divertir-se “longe das telas”, o que, considerando outros elementos da trama, sugere que a narrativa se passa por volta de 2008, ano de grande crise econômica e que levou muitas pessoas ao redor do mundo à ruína financeira.
São dignas de louvor as atuações de Omaha, destacando-se a de John Magaro, como esse pai desesperançoso e entristecido cuja interpretação perpassa uma introspecção sutil e que diz muito sobre as enormes dificuldades pelas quais passa o personagem, mas também os trabalhos de Molly Belle Wright e Wyatt Solis, que interpretam seus filhos.
Outro aspecto que se destaca é o trabalho da fotografia conduzida por Paul Meyers, sempre trazendo de forma particularmente bonita as paisagens das estradas americanas, naqueles cenários vastos e vazios, o que impacta na experiência do espectador ao corroborar com a continência que impregna o longa-metragem.
Omaha começa a dar mostras do porvir quando o pai para o carro e, sem anúncios, resolve deixar o cachorro da família em um canil à beira da estrada, por conta de questões econômicas, o que atinge muito as crianças.
A falta de dinheiro da família, em si, é algo que sempre vem à tona ao longo de Omaha e, para além do abandono do animal de estimação, é tratada de forma muito sóbria e direta em outros momentos da trama, no que destaco a cena em que o pai, sempre contido, sofre com o fato de não ter dinheiro para oferecer uma adequada alimentação a si e aos seus filhos, no que opta e deixa de comer para que seus filhos possam se alimentar.
Ao longo da viagem, Ella descobre que o destino final da viagem seria a cidade de Omaha, no estado de Nebraska, e, assim, passa a pedir ao seu pai que os leve ao zoológico local. Após pensar e fazer inúmeros cálculos financeiros, o pai leva sua prole ao zoológico, o que rende cenas de leveza e beleza únicas, em que todos ali parecem aproveitar e divertir-se em meio aos animais, onde felicidade e uma espécie de alívio parecem confundir-se.
Todavia, essa é apenas uma breve suspensão do mal-estar que retorna com todo o vigor e potência no desfecho do longa-metragem de Webley, desfecho esse que, novamente, e obedecendo ao tom do filme, é apresentado de forma direta e orgânica e que é de uma potência e emotividade ímpares, revelando de forma muito crua o que a miséria, a dor, a vulnerabilidade e a desesperança podem estimular que um pai faça a seus filhos. Aqui reitero a força da atuação de John Magaro, que segura o peso do que ocorre com seu personagem de forma absolutamente competente.
Ao final, um texto surge na tela trazendo informações sobre a legislação do estado de Nebraska, dando conta de que o ocorrido no longa-metragem também aconteceu na realidade, fazendo com que uma “última peça do quebra-cabeça” fosse colocada, o que, acredito, só faz aumentar a potência do desfecho.
