Palco-Cama | 2026
Um quarto fechado, uma pequena mesa, uma cadeira, um quadro branco, apagador, caneta, um armário, uma cama, um globo terrestre. Esse ambiente tanto claustrofóbico quanto convidativo, de ar pesado, transcende ao status de palco pela presença magnética do ator Zé Celso, que posicionado na cama, uma taça de vinho nas mãos, sai da posição de entrevistado do diretor Jura Capela, no documentário Palco-Cama, para criar um espontâneo e fluido monólogo, onde fios e fios de ideias vão se amarrando e se costurando pela mente imparável do multiartista e fundador do Teatro Oficina.
É possível dizer que um só ambiente pode pressupor a existência de uma única atmosfera. No entanto, Palco-Cama abriga, ainda que inconscientemente, uma diversidade delas, que se alteram conforme o tom da (auto)reflexão de Zé Celso, mas, principalmente, que se formam em razão do que sabemos a respeito do desfecho de sua vida. O documentário foi filmado em 2007, no mesmo apartamento, quarto e cama em que o ator veio a falecer em decorrência de um incêndio em julho de 2023, aos 86 anos. O “espaço-cama” a que ele se refere no ano da entrevista como berço da criação e da concepção da vida, tornar-se-á, no futuro, seu leito de morte. Trata-se de uma relação inevitável, e portanto a presença de uma certa estranheza mórbida é notável em muitos momentos do longa, indo e voltando a cada vez que ele subitamente diz que está se sentindo sufocado.
Não obstante o lado sombrio, a energia e a vida que pulsam de Zé Celso predominam, e é fácil se deixar levar por seu raciocínio, lúcido e alucinógeno concomitante e complementarmente. Palco-Cama devora o ator com fascínio, e nessa entrevista, perguntas são desnecessárias. São poucas as intervenções do diretor para além dos zooms e da movimentação sutil de sua câmera. Pelo contrário, em sua casa, o artista sente-se à vontade para sugerir mudanças à Capela. Aliás, são 70 minutos de fala livre, e a obediência do artista se limita a permanecer na cama, o modo como o faz, ele altera o tempo todo, deitado, de joelhos, sentado, como quiser. A liberdade criativa, ali, é tanto de diretor como de entrevistado, já a linha de pensamento deste último não segue nenhum script pré-definido.
Tudo na mente de Zé Celso é arte. Ele respira arte, medita arte, se alimenta da expressão artística e nos nutre com ela, em sua forma bruta, naturalmente fluída. Nesse monólogo, ele fala da importância do corpo do artista de se colocar na posição de quem vê tudo pela primeira vez, e mesmo com vasta experiência, se mostra para nós nesse estado de maravilhamento. A necessidade de criar o tempo todo é absurda, é sobrevivência e vida.
Ele fala sobre quando empinava papagaio na infância em Araraquara, e como fez disso música e peça de teatro. Quando notamos, Celso está nos dizendo como Oswald de Andrade mudou sua vida, relacionando figuras como Antônio Conselheiro, Nietzsche e Euclides da Cunha. Enquanto beberica seu vinho, nos pega desprevenidos num ensinamento sobre o Deus Dionísio e o retorno do paganismo no Brasil através da bebida. Vai para política, para a classe média, para a burguesia, para o carnaval e orgias, para o asco ao politicamente correto e ao moralismo. Transita de um assunto para outro de forma natural, sem esforço aparente. Zé Celso nos conta a história do Brasil sob o ponto de vista artístico, sem perceber que o está fazendo.
Como dito, uma das poucas intervenções do diretor se dá através do zoom. É por esse ajuste que ele nos aproxima ainda mais do artista, que encara a câmera, provocando uma intimidade quase incômoda, como se nos desafiasse a perceber se tudo o que assistimos é ou não uma performance. Sabemos que ali há improviso, mas o domínio da arte da representação (ou, como ele prefere definir, da presentação) é tão enormemente assustador que a reflexão fica conosco após o longa.
É fato que quando há paixão pelo que se faz, tudo ao redor é envolvido por esse fervor. Zé Celso tem tesão e é apaixonado por sua arte como Capela é apaixonado por Zé Celso, e essa junção magnética nos faz apaixonar também, alucinados por essa grande viagem proporcionada pelas divagações da mente de um homem que existiu plena e conscientemente, que parecia absorver tudo e ser incapaz da indiferença às sensações – e que faz uma falta monumental ao mundo.
