Papaya | 2025

Papaya | 2025

Em sua dimensão biológica e simbólica, gerar vida é um conceito intrinsecamente relacionado à maternidade. A capacidade do corpo nascido feminino de gestar, criar um ser em seu interior e dá-lo à luz, trazê-lo ao mundo, é indissociável da figura materna. Não à toa chamamos a natureza de mãe, essa imensidão que abraça o mundo como filho para gerar, alimentar, dar abrigo, e que faz renovar a vida mesmo após a morte, num ciclo infinito de existência e interdependência. 

Em Papaya, animação dirigida por Priscilla Kellen, aquela que gera a vida se materializa num mamoeiro, cujos filhos são sementinhas e frutos de mamão da espécie papaya. Essa árvore-mãe é o seio materno que dá alimento para os embriões vegetais que germinarão no futuro, sugando seus nutrientes como bebês bem aconchegados no ato de amamentar. Ela também precisa parir seus frutos, e para fazê-lo, se esforça tal qual mulheres em trabalho de parto, a dor e o suor que logo se transformam em afeto. Essa é a belíssima representação do ciclo da vida desenhado pela diretora, um microcosmo equilibrado composto por cores vibrantes e seres e criaturinhas encantadoras, um espaço onde tudo importa e tem consequência.

A coprodução de Alê Abreu (O Menino e o Mundo) carrega uma assinatura que faz presumir que Papaya será menos otimista que seu início prenuncia, e o que vem como contraste ao mundo que parece perfeitamente ordenado é essencial para compreender a obra como crítica ao agronegócio e ao processo industrial que finda por robotizar a produção de alimentos. O protagonista, cuja curiosidade e vontade de voar vai afastá-lo da harmonia que o acolhe, é uma semente de mamão que precisa aprender por si seu lugar nesse espaço onde, sob seu pequeno ponto de vista, tudo é vasto. 

Como disse minha amiga e crítica de cinema Carol Ballan, numa conversa que tivemos após a sessão, Papaya é uma jornada de amadurecimento… de uma semente de mamão. Para germinar e amadurecer, precisa percorrer os caminhos áridos da autodescoberta, da luta pela sobrevivência e da devastação do verde que ela descobre ser ausente ao redor da minúscula floresta da qual veio. Nesse processo de aprendizado que decorre do desafio, da quase-morte do ser infantil que ainda tem tanto a oferecer ao equilíbrio de seu mundo, há a resistência ao destino de apenas fincar-se na terra para brotar. A sementinha deseja voar, deseja ser mais do que a natureza lhe impõe.

No organismo pulsante que é o universo criado por Priscilla Kellen, uma floresta desenhada em formas geométricas (o pólen é representado por pequenos triângulos no rastro dos personagens) e colagens de imagens reais de frutas e legumes, raízes possuem a missão fundamental de serem veias e artérias que conectam e dão energia a tudo que brota. O alimento recebido pela semente de mamão é transmitido ao cogumelo, que o repassa aos insetos, que o polinizam, como um corpo em pleno vigor. A infantilidade proposta pelo grão, representado como um bebêzinho de olhos brilhantes que descobre tudo pela primeira vez, é contraposta pela psicodelia dos cogumelos e bichos de esgoto, que embalados numa trilha sonora bastante brasileira e especificamente nordestina, proporcionam momentos de alucinação que nos prendem como imã estruturado de som e imagem.

As trocas, os afetos, os percalços e o sofrimento não afastam o pequeno protagonista de seu sonho. Ele conquista sua liberdade com resistência e teimosia, e por que não dizer, desafiando a natureza e encontrando seu lugar na manutenção desse equilíbrio. Papaya é uma adorável jornada, cujos momentos de dor fortalecem a existência de cada ser dotado de vida – e a prova de que o tamanho não é proporcional à importância. 

Nota:

Author

  • Advogada, cofundadora, editora e crítica de cinema no Coletivo Crítico. Formada pelo Talents Rio da Berlinale e Goethe Institut. Membra do júri da Latin American Critics Awards for European Films.

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