Querido Trópico | 2024
O cuidado materno
A espécie humana é paradoxal. Mesmo dotados de racionalidade, existimos de maneira desarmoniosa, seja com a natureza que nos cerca e nos provém a vida, ou entre os congêneres. A humanidade cria e autoimpõe um sistema excludente: por raça, gênero, nacionalidade e, cada vez mais evidente no capitalismo selvagem, barreiras de classe econômica e social, entre outras. Mas há situações e pessoas que nos provam que é possível transcender esses limites, como o exemplo que a cineasta panamenha Ana Endara conta em Querido Trópico.
Ana Maria (Jenny Narravete) é uma imigrante colombiana que trabalha como cuidadora de idosos em uma casa de repouso. Temos poucas informações sobre quem é essa personagem e seu passado, já que a primeira intenção de Endara é uma contextualização social. De imediato sabemos que está grávida e carrega um ar de melancolia; depois descobrimos que é pobre e mora com uma amiga, que inclusive lhe cobra os pagamentos atrasados das despesas do apartamento.
Narravete coloca um peso excessivo em sua atuação, andando arqueada e muito lentamente, quase sem expressões, para reforçar que Ana Maria carrega alguma dor terrível. Seus breves momentos de alegria acontecem quando está cuidando dos outros, observando recém-nascidos ou conversando com mulheres grávidas. Ela tem zelo ao pintar as unhas de uma idosa e a sutileza de levar biscoitos para sua colega quando volta do trabalho.
A marcação de classe fica ainda mais evidente quando Ana é recrutada para trabalhar na casa de Mercedes “Mechi” (Paulina García), uma senhora muito rica que sofre com o avanço da demência. Jimena (Juliette Roy), a filha de Mechi, vê a necessidade de ter uma cuidadora 24h por dia para a mãe que vive sozinha com uma empregada doméstica na mansão. Se, por um lado, a riqueza do lugar não faz parte da vida de Ana, por outro, o ato de cuidar lhe traz familiaridade e satisfação, mesmo depois dos avisos de Jimena sobre a personalidade difícil de Mechi.
De início, a relação entre as duas é realmente complicada, mas Ana consegue “quebrar o gelo” aos poucos e se torna a melhor companhia para a idosa. Há uma leve e gradativa mudança física na cuidadora, que agora sorri mais e não retrai tanto os ombros, mas, mesmo assim, ainda se percebe em diversos momentos que o peso de seu passado permanece como um tormento. García, que já havia feito um trabalho excelente em Glória, filme de Sebastián Lelio, entrega a atuação mais marcante de Querido Trópico. Ranzinza e cautelosa com a nova moradora da casa, seu olhar ganha traços de carinho e simpatia.
À medida em que a doença progride e mais cuidados são necessários, as duas se tornam mais amigas, e até confidentes. Essa amizade substitui a melancolia pelo acolhimento. Mechi e Ana abraçam uma à outra em um instinto maternal, mesmo que em condições opostas. A fotografia explora essa afetividade crescente para criar belas imagens, como os momentos de diálogos das duas no jardim, entrecortadas por primeiríssimos planos de insetos que caminham entre as folhas, e os passeios no parque sob forte chuva.
No entanto, por trás dessa beleza visual e afetiva, há uma escolha narrativa que fragiliza o discurso inicial de Endara. Querido Trópico evolui nos aspectos da maternidade e da sororidade, porém se desapega do viés social e político. O passado da cuidadora que se revela aos poucos não tem mais o foco que parecia ter no início, dando lugar à relação forjada entre as duas como uma conciliação entre as classes. Até mesmo o passaporte que Ana entrega para Jimena pedindo ajuda com seus documentos, com os quais se preocupa mais do que o salário proposto para o trabalho, é preterido a uma brevíssima cena.
Portanto, a transcendência dos limites do paradoxo humano se torna simplória, reduzindo a narrativa a uma visão que não é inovadora sobre o tema. A abordagem classista proposta nos primeiros minutos não desaparece por inteiro, mas se resume a situações que no próprio enredo acabam sendo pouco trabalhadas. Mesmo assim, é bonito ver duas personagens femininas que se unem para criar forças de resistência;, uma para superar o passado e o trauma, outra contra a perda de sua consciência.
Querido Trópico é o primeiro filme de ficção de Ana Endara, que revela referências ao cinema de Céline Sciamma, rendendo uma obra sensível sobre as relações femininas diante da condição existencial de ser mulher.
