Ride or Die | 2025
Um thriller queer, provocante e absurdista
A juventude urge por aventuras e acontecimentos imediatos, e se deixar levar por uma paixão é fácil quando há nos indivíduos a necessidade de envolvimentos mais significativos. Especialmente no caso de Paula (Briana Middleton), protagonista de Ride or Die – longa de estreia da diretora americana Josalynn Smith, que reencontra um antigo crush da escola, agora mais madura e confiante com sua sexualidade queer.
Paula é uma mulher negra, de cabelos curtos e encaracolados. Por força do acaso, encontra Sloane (Stella Everett) — sua enigmática paixão do ensino médio, em um brechó vintage em St. Louis, onde ela trabalha como caixa. Sloane tem cabelos loiros, olhos e pele clara, um piercing no septo e se veste de forma provocante. Na primeira troca de olhares as meninas se reconhecem e se conectam com certo magnetismo quase erótico, resgatando a nostalgia de uma atração antiga entre elas.
As duas jovens têm personalidades bastante distintas; Paula é calma, centrada, com uma família estável, estuda cinema e sonha em ir para Los Angeles em busca de trabalho. Sloane tem um espírito inquieto, um rosto confuso, comportamentos impulsivos e indícios de uma vida familiar bastante problemática. Abraçando a máxima de que os opostos se atraem, logo após esse reencontro as meninas, por incentivo de Sloane, decidem partir em uma roadtrip com destino a Califórnia.
Quase impossível não comparar com a aventura de Thelma e Louise, roadmovie feminino mais famoso do cinema. Ride or Die traz aspectos que se assemelham ao longa de Ridley Scott, pela pulsão desenfreada de liberdade na escolha dessas duas jovens que partem atrás de um sonho sem pensar muito nas consequências, mas que flerta com um tom mais visceral e menos “limpinho”, como em Assassinos por Natureza de Oliver Stone. Longe de ser tão violento, mas aprumado no teor absurdista e inconsequente de um romance que chega a ser perigoso.
Smith parece ter uma ligação pessoal com sua protagonista, por também ser uma mulher negra e uma cineasta da mesma cidade que a personagem que cria. A diretora trata com sutileza e profundidade os detalhes dessas duas jovens, que mal colocam o pé na estrada e já precisam de um guincho, acabam em um hotel precário, quase sem dinheiro. Ela se sai muito bem também em mostrar as situações em que Paula é prejudicada e julgada por ser negra e por ser queer, enquanto Sloane passa ilesa de qualquer olhar estranho ou constrangimento nesse sentido. Há uma hipersexualização do corpo de Sloane, que tem seios fartos e usa roupas decotadas, fazendo com que ela acabe correndo perigos por isso.
O breve cotidiano de Paula e Sloane se transforma rapidamente em caos, tudo parece dar errado e às vezes fica difícil embarcar na crença de que uma garota como Paula, com uma mãe preocupada em casa e um futuro pela frente, aceitaria correr tantos riscos só para estar com Sloane. Entretanto, a energia entre as duas é sedutora e elas conseguem sempre arrumar divertimento em meio aos inúmeros problemas que enfrentam no caminho.
Sloane está quase sempre empacando a rota, se envolvendo com gente estranha, como quando usa drogas com desconhecidos no banheiro do cinema, o que as leva a serem ameaçadas de roubo e a cometerem crimes. Nessa sequência, Sloane faz piada com Garota Infernal (2009) no meio da sessão dupla onde está sendo exibido Filhas do Pó (1991) e na sequência seria O Matador de Ovelhas (1978), escolhas (no mínimo) bastante significativas. Como uma manic pixie dream girl, problemática e ao mesmo tempo atraente e instigante, Sloane causa danos irreversíveis, mas também inspira e dá um novo sentido à vida de Paula. Esse laço, que é meio irracional, mas potente, garante que as duas se ajudem até o fim, e é bonito como ninguém é deixado para trás na estrada.
Ride or Die fez parte da seleção oficial do Festival de Tribeca e existe um curta-metragem de mesmo nome gravado em 2019
