#SalveRosa | 2025
Que a adultização é um fenômeno contemporâneo que antecipa aspectos e responsabilidades da vida adulta à criança e que suas repercussões são sobremaneira tóxicas, não há discussão. Se nos tempos pré redes sociais esse processo era muito comum, por exemplo, em atrizes e atores mirins, submetidos a rotinas de trabalho exaustivas em sets de filmagens em desrespeito e desconsideração à condição infantil, com as redes a problemática assume uma nova faceta – likes, engajamentos e seguidores viram metas e refletem em lucro, instrumentalizando-se a criança como um produto que precisa ser constantemente vendido.
#SalveRosa, novo filme dirigido por Susanna Lira, toca nessa ferida social através da personagem Rosa (Klara Castanho), uma influenciadora de 13 anos que é, desde muito pequena, sucesso num canal do YouTube com mais de 2 milhões de seguidores, administrado por sua mãe, Dora (Karine Teles). Após passar mal na escola e ter acesso aos resultados hormonalmente alterados de seus exames de sangue, Rosa começa a suspeitar estar sendo usada por sua genitora. O longa promete-se um suspense psicológico que retrata as descobertas progressivas sobre a relação entre mãe, filha e a exploração do trabalho infantil, com direito à reviravoltas de teor científico e personagens caricaturais.
Enquanto assume a caricatura, #SalveRosa envolve, na medida em que vamos captando suas pistas para o encaixe do quebra-cabeça que vai se formando. Dora é uma mãe tipicamente branca, perua e rica de primeira viagem, que criou a filha sozinha e é dona de um caráter passivo-agressivo que exerce seu poder com facilidade. Sua vilanização é progressiva e compassada às descobertas da trama, e encontra seu ápice não só no extremo do abuso moral praticado contra Rosa, mas também por assumir-se como causa de ruído do casamento de seus vizinhos, Vera (Indira Nascimento) e Beto (Ricardo Teodoro). Klara Castanho, por sua vez, compõe sua Rosa com exímia competência, construindo uma boa e obediente menina, impecável, simpática e sorridente na frente das câmeras que a conectam aos seus seguidores, mas silenciosa e de expressão triste fora delas.
O maior problema de #SalveRosa consiste no afastamento da caricatura para contemplar um suspense que ele sequer passa perto de alcançar, levando-se a sério demais quando o tenta fazer. Muito embora a temática seja preocupante, obviamente merecendo ser tratada como uma questão social que precisa ser denunciada, o longa muda bruscamente de tom quando sente necessidade de explicar-se a si mesmo excessivamente. Ao revestir-se de seriedade e densidade dramática, perde-se tanto ao ponto de tornar-se mais risível do que interessante.
De mais a mais, surpreende que #SalveRosa mostre-se um tanto moralista e hostil com suas figuras femininas. A uma, porque vilaniza Dora para além da relação de irresponsabilidade para com a filha, inserindo-a num papel de destruidora de famílias tradicionais, estigma que já é pesadamente carregado por mulheres solteiras e mães solos em uma sociedade que, muito embora contemple legalmente todos os formatos de família, ainda insiste em impor um modelo a ser seguido. A duas, porque reafirma esse posicionamento que contrapõe mulheres, a solteira e a casada, ao transformar essa última em salvadora.
Assim sendo, #SalveRosa não compreende-se como gênero, encontrando notórias dificuldades para encontrar seu espaço, findando por não encaixar-se em nenhum dos caminhos que transita. Há de se reconhecer que Susanna Lira acerta na escolha de seu elenco principal, já que é sempre um deleite assistir a atuação de Karine Teles, e Klara Castanho, hoje com 25 anos, nos apresenta indubitavelmente uma garota de 13. De se mencionar, ainda, que a fotografia de Lílis Soares esbalda uma infantilidade sombria através das cores que entornam Rosa. No entanto, bons elementos isolados não são suficientes para a construção de um bom filme. Talvez a preocupação excessiva com o alcance a um público mais novelesco tenha prejudicado a ideia de projeto mais caricatural que #SalveRosa aparenta que irá transitar antes de morrer na praia.
