Senhoritas | 2025

Senhoritas | 2025

É socialmente interessante, como modo de controle e proteção patriarcal, que cada ciclo da vida de uma mulher seja funcionalmente pré-designado. Há um desenho estabelecido e cada uma de nós é induzida ao encaixe de sua moldura. Todo o extracampo, tudo que foge desse enquadramento padronizado, é fortemente reprimido, seja por nosso entorno, seja por nós mesmas. Se a mulher no auge de sua vida produtiva é vítima desse sistema cíclico e opressor, o que se dirá da mulher em idade madura, cuja aposentadoria parece ser, dentre tantas outras delimitações, sinônimo de disponibilidade de tempo e dedicação ao outro – ao marido, aos filhos, aos netos. Confunde-se a mulher ao ambiente doméstico, exigindo-se uma simbiose em prol de sua anulação como ser humano dotado de vida própria e desejos.

É fato que o cinema, quando atua como refletor de realidades, colabora para a disseminação desses formatos sociais. Não é necessário dizer que atrizes a partir dos 50 anos já sofrem com a carência de papéis e protagonismo nas telas. O cinema reproduz a opressão externa e subvaloriza mulheres, colocando-as nas mesmas caixas invisíveis do mundo real, como mães, avós, meros objetos cenográficos, personagens pouco complexos desprovidos de dimensões. Senhoritas, primeiro longa-metragem de Mykaela Plotkin, exibido na competição de longas metragens do CinePE, faz o exato movimento oposto dessa tendência normatizante, provocando abalo às estruturas ao propor que voltemos os olhares a uma protagonista, esposa, mãe e avó de 70 anos, em redescoberta do amor próprio, o que inclui dar impulso aos seus próprios desejos, e mais ainda, a descobrir-se mais viva que nunca e disposta a usufruir de prazeres simples, mas tidos como proibidos para sua idade.

Lívia (Analu Prestes), carinhosamente apelidada de Lili, é uma arquiteta aposentada e intelectual de classe média, que desfruta de uma vida confortável e estável ao lado do marido, Rui (Genézio Barros), numa casa belíssima cujo jardim é por ela mesmo cultivado. Mãe de Cora (Clarissa Pinheiro) e avó dedicada, ela se devota à rotina doméstica e aos cuidados da neta. O retorno arrebatador de sua amiga de longa data Luci (Tânia Alves) desperta nela esse desejo de sentir-se viva novamente.

A oposição entre Lili e Luci é posta pela diretora não como uma rivalidade, que seria, quiçá, um caminho fácil, mas como uma inspiração que reluz à protagonista a existência de outras formas de viver aplicáveis também à sua idade. Trata-se do contraste do invisível para o visível, do discreto para o que se impõe, e tanto a personalidade como o figurino das personagens dizem muito a esse respeito. Enquanto Luci veste roupas de azul royal vibrante, que deixam livres seus ombros e valorizam as curvas de seu corpo em forma, Lili usa vestidos mais largos em tons pasteis considerados compatíveis para sua idade. Ao passo que Luci se sente à vontade para usar um batom vermelho e usar a maquiagem para realçar sua beleza, Lili faz do ato de pintar a boca algo que precisa ser feito às escondidas. A amiga que retorna comemora seu aniversário numa discoteca, flerta com homens mais jovens e faz aulas de dança, enquanto que a protagonista precisa inventar mentiras à família para ocultar, por exemplo, que foi à praia com as amigas. São notórias as amarras de uma em disparidade à liberdade da outra.

O que em Luci choca, e que Lili passa a colocar em prática tal qual uma adolescente que precisa ocultar o namorado dos pais, são prazeres rotineiros e elementares diretamente relacionados ao autocuidado, ao gosto de se aproveitar a vida, que são mais intensamente problematizados e coletivamente julgados em razão da idade das personagens. Dançar, sentir-se bonita, masturbar-se, fazer sexo, ir à praia, olhar-se no espelho, passar um batom, beber um drink, reunir-se com as amigas, jogar conversa fora, decidir comprar um almoço ao invés de cozinhar, ir ao sex shop, preferir a aula de dança do que cuidar todos os dias da neta – são ações que denotam consciência de amor próprio em primeiro lugar.

Tudo se resume, como se vê, à busca da felicidade em todas as fases da vida. O julgamento daqueles que pretendem e correm atrás de gozar de seus direitos fundamentais à dignidade, à saúde e ao lazer, parece tornar evidente que há uma seleção estrutural de quem pode e de quem não pode perseguir essa busca. Os direitos são para todos, mas não o são. Isso se faz notório em muitas camadas sociais, e a denúncia de Senhoritas toca justamente na ousadia de tornar visível aqueles que a coletividade prefere relegar aos cantos obscuros da existência – há uma função social pré-determinada às pessoas idosas e usufruir da vida com prazer não faz parte dessa imposição.

Mykaela Plotkin faz, ainda, um recorte de classe muito específico que torna sua exposição mais elitista, mas ao mesmo tempo funciona como denúncia da submissão a que todas as mulheres estão posicionadas, independentemente da classe. Lili é uma intelectual, aposentada de uma carreira de sucesso, que vive uma vida muito confortável e financeiramente estável. Sua escolaridade e posição social fazem, em teoria, presumir maior facilidade na visualização da estrutura que a mina, e mesmo assim, estamos diante de uma mulher que precisa de um grande acontecimento para enxergar-se controlada.

São muitas, e podem ser infinitas, as descobertas e redescobertas de Lili. A feminilidade que ela se vê resgatar, do autoamor ao cuidado na arrumação do arranjo de flores que ela bagunça ao notar a chegada de outra pessoa, fazem transparecer a luta interior dessa mulher que tenta libertar-se o tempo todo, mas é sutilmente presa em suas tentativas, até que, de repente, há Luci. A relação passada das amigas permanece no subtexto de Senhoritas, e há algo que caminha entre o amor sexual e a amizade que a diretora prefere não rotular – e ali, naquele contexto, impor mais um rótulo seria, de fato, novamente limitar as possibilidades de existência da protagonista.

Senhoritas é muito claro em seu propósito, mas a diretora não abandona a sutileza das subversões sociais na própria imagem fílmica. Com as frutas maduras no cesto que acompanham o título na tela, da questão que faz ao posicionar as personagens mulheres tomando um café calmamente enquanto um homem lava a louça ao almoço ao fundo, ao repentino impulso que a protagonista obedece ao colocar a cabeça na água da piscina da neta, Mykaela Plotkin constroi, do discreto ao explícito, pequenas revoluções que tomam proporções imensas ao ponto de transformar os hábitos não só de Lili, mas do núcleo familiar como um todo, que vai aprendendo com ela. 

Em toda essa construção, a diretora evita vilanizar o marido, ou trazer ao seu núcleo pontos de conflito que poderiam facilitar, sob o ponto de vista externo, as decisões da protagonista. Rui é um companheiro compreensivo com quem Lili se dá muito bem. Trata-se, portanto, de um relacionamento saudável. Senhoritas ao impor que, mesmo nesses, a mulher não só corre o risco de se perder, como, de fato, se perde de si mesma, tal qual Lili. 

A jornada de redescoberta individual da protagonista é, invariavelmente, muito sexual. É fundamental a representatividade de Senhoritas não só no posicionamento de corpos idosos na tela, mas corpos idosos nus e com tesão. As cenas de sexo são cheias de desejo e exalam fogo e excitação, o oposto do que se espera na abordagem do sexo na terceira idade – diga-se, nada. Mykaela Plotkin constroi cenas belamente coreografadas que dão ênfase ao apetite pulsante da protagonista e a busca por seu prazer (nem sempre alcançado). É curioso notar, durante a sessão, o desconforto de muitos que se externou através do riso nervoso, em contraponto à empolgação das inúmeras mulheres maduras presentes na sessão que se viam representadas em Lili.

Não há como negar que há, sim, excesso de romantização e poesia na representação da sororidade entre as amigas de Lili. O senso de pertencimento é adornado por uma ambientação quase que artificial de tão bela, flores e plantas de um jardim digno de rainhas. Mas é justo que assim o seja. Afinal, por que não permitir essa poesia a elas, personagens e mulheres da vida real? É justamente no ponto de equilíbrio que Senhoritas vai nos dizer mais fortemente que, sim, podem coexistir muitas personalidades em uma única pessoa e isso é importante para a felicidade. Lili ama a neta, e sair para dançar de vez em quando vai fazê-la aproveitar com mais qualidade o tempo que passa com ela. Adora a visita da família, mas não vai deixar de tomar um café com as amigas. Não vai mais negar-se a si mesma em prol da excessiva dedicação ao outro, e isso não significa, em esfera alguma, o abandono do amor. Significa, sim, a inclusão de um novo amor à sua história, a devoção a alguém que, muito mais do que qualquer outra pessoa, sabe exatamente como fazê-la feliz – ela mesma. 

Nota:

Author

  • Advogada, cofundadora, editora e crítica de cinema no Coletivo Crítico. Formada pelo Talents Rio da Berlinale e Goethe Institut. Membra do júri da Latin American Critics Awards for European Films.

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