Seu Cavalcanti | 2025

Seu Cavalcanti | 2025

O extraordinário nos dias comuns 

Há muita beleza nos registros dos dias comuns. Nos dias em que, aparentemente, nada de extraordinário acontece, nenhum grande evento, nada que traga grande comoção. Pelo contrário, há a mera reprodução do prosaico, do ordinário e, acima de tudo, a exposição daquilo que as coisas são, desinteressadamente.

Seu Cavalcanti, segundo longa-metragem dirigido por Leonardo Lacca e que conta com a produção de Kleber Mendonça Filho e Emilie Lesclaux, se vale, primordialmente, disso: da beleza que há nas filmagens de Lacca de dias comuns de sua família, mais especificamente, do seu avô Severino Cavalcanti, um carismático senhor com mais de noventa anos.

O filme parte de aproximadamente vinte anos de filmagem e é dotado de um tom absolutamente pessoal e intimista, mas que, ao mesmo tempo, tem o condão de se conectar com o público, na medida em que boa parte dele, imagino, irá pensar nos seus avós e nas vivências que, com eles, experimentaram.

Seu Cavalcanti também passa a se tornar mais interessante quando o próprio Severino Cavalcanti se dá conta de estar sendo filmado e lida de forma muito natural com isso. Talvez por isso, por essa abertura ao ser filmado e interagir com a câmera, seu neto investe em uma outra “camada” neste longa-metragem: o da ficcionalização.

Assim, Seu Cavalcanti passa a ter cenas em que Cavalcanti, interpretando a si mesmo, contracena com atrizes como Maeve Jinkings e Tânia Maria, abusando do improviso e do bom humor em cenas que, ao mesmo tempo que são muito gostosas de assistir, podem abrir uma brecha para que o espectador “mais distraído” não compreenda que, naquelas momentos específicos, trata-se de algo ficcional/encenado. Ainda assim, considero que a escolha pela “docuficção”  traz frescor e notável dinâmica ao filme.

É bem interessante notar a naturalidade com que Lacca aborda, sobretudo, o clamor de Cavalcanti pela manutenção de sua independência e por manter o desejo de deslocar-se pela cidade através do uso do seu carro, bem como a afirmação do desejo de beber seu whisky e de manter relacionamentos afetivos.

É inegável que, através da história deste senhor carismático, há uma indicação das transformações que o próprio país sofreu. Ou seja, partindo do particular, buscou-se alcançar o mais geral. Dentre essas transformações, as mais facilmente perceptíveis dizem respeito aos bens de consumo (carros, artigos domésticos etc.), à dinâmica da cidade de Recife, mas também há referência à política, sobretudo quando se traz à tela um policial aposentado que se mostra eleitor de Dilma Rousseff e lhe tece palavras de admiração — algo que (apesar de existirem exceções), atualmente, soa estranho, principalmente quando pensamos na “bancada da bala” tornando-se um grupo político de grande relevância e que se opõe fortemente ao grupo político ao qual Rousseff pertence.

O uso da narração orienta o espectador de forma eficaz e assertiva, não prejudicando a experiência que é assistir ao longa-metragem. Cumpre mencionar, também, a continuidade das filmagens para além da morte do protagonista, denotando a sua enorme presença naqueles locais, mesmo na ausência do seu corpo físico. Destaco, nesse contexto, a maravilhosa cena em que Tânia Maria, antiga amante de Cavalcanti, leva a “filha bastarda” para conhecer as outras irmãs e que, juntas, também enfrentam as “agruras” de andar no velho carro de Cavalcanti, por ele tão amado, em uma divertidíssima cena.

Certamente, é difícil realizar um projeto tão pessoal sem ser piegas. Leonardo Lacca consegue com louvor, ao dirigir um filme genuíno e extremamente bonito, ao trazer, ora com crueza, ora com ficcionalidade, as belezas (nem sempre percebidas) dos dias comuns.

Nota:

Author

  • O representante do Pará no Coletivo Crítico que, entre o doutorado em Direito e os jogos do Paysandu, não dispensa uma pipoca para comer, uma Coca Cola gelada para beber e um bom filme para ver.

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