Sexa | 2025
A mulher mais velha é comumente colocada na sociedade como um espectro de si mesma, onde muitas vezes suas particularidades, vontades e desejos são desconsiderados, ou pior, banalizados e ridicularizados. Sexa, longa dirigido e estrelado por Glória Pires, que marca sua estreia como diretora de longa-metragens, é uma comédia romântica que traz à luz a realidade de uma mulher sexagenária, que precisa lidar com o próprio processo de envelhecimento, que a faz criar novas perspectivas sobre seu lugar que ocupa na vida e no imaginário das pessoas que a cercam.
Em um ano em que temos muitas atrizes assumindo a função de estreia na direção, Sexa conversa com o filme da também estreante Scarlett Johansson, Eleanor the Great, que igualmente dialoga com o etarismo feminino e suas consequências. No filme de Glória o tom de comédia é o que mais se sobressai, usando piadas e sarcasmo em torno dos 60 anos da protagonista Bárbara, que tenta compreender as limitações de seu corpo, as novas dificuldades da visão e marcas de expressão.
O longa traz um aspecto estético um tanto novelesco, com um cenário tipicamente carioca, ambientado na zona sul do Rio de Janeiro. Sexa explora espaços praianos, vida boêmia e também urbana da cidade maravilhosa. Bárbara exala uma personalidade que condiz com seu habitat de mulher solitária de classe média, que vive perto do mar. Logo no começo temos a cena de Bárbara em um jantar com seu filho Rodrigo (Danilo Mesquita) e sua nora Natália (Luana Tanaka), que precisam ter uma conversa sobre a situação financeira do jovem casal que depende da ajuda de Bárbara para pagar a escola do filho. Rodrigo é um rapaz sonhador, um músico que toca em barzinhos à noite e almeja deslanchar na carreira musical, tarefa difícil no concorrido nicho de músicos cariocas; enquanto Bárbara luta por vagas de emprego melhores.
A relação de mãe e filho evidencia um ruído familiar incômodo que é acentuado pelos julgamentos de Rodrigo em relação ao comportamento amoroso de sua mãe. Bárbara, consciente de sua idade, mas também consciente de seus desejos, se envolve com rapazes bem mais jovens do que ela. Isso acaba constrangendo seu filho, que a vê como uma idosa e repreende seus interesses por pessoas próximas de sua faixa etária. Há uma cobrança e bastante pressão sobre Bárbara por parte do casal, para que ela mantenha a ajuda financeira ao neto, quando há também, por outro lado, um desrespeito com quem ela realmente é enquanto mulher adulta e livre. “Sexa, minha primeira direção, um filme sobre maturidade, liberdade e o lugar do feminino”. Comenta a diretora, que deixa evidente em seu longa o desconforto que julgamentos assim provocam em mulheres consideradas velhas socialmente.
A verdade é que há muita vida aos 60 anos, uma vibração, pulsão por emoções, paixões e aventuras, que a juventude custa a compreender. Quem a entende bem e a incentiva é sua amiga e vizinha Cristina (Isabel Fillardis), com idades aproximadas ela é a amiga festeira, bixessual e grande incentivadora de Bárbara quando ela relata começar a sair com Davi (Thiago Martins), um rapaz de 35 anos, da área de TI e fã de Harry Potter.
É divertida e leve a relação de Davi e Bárbara, as discrepâncias entre os dois são trazidas com humor, há até um excesso de piadas sobre o mesmo tema, porém muitas caem bem, tornando Sexa um filme descontraído que trata um assunto delicado sem pesar a mão. A direção investe em cenas íntimas, em ressaltar a vivacidade da mulher de 60 anos, que exala sexualidade e é desejada por pessoas mais novas sem tabu.
O longa, apesar de se ramificar em algumas subtramas, é um estudo de personagem onde Bárbara é a heroína “sexa” e sexy que faz suas próprias escolhas, que decide embarcar nas paixões que cruzam seu caminho, mas que também decide freá-las quando achar mais conveniente. A protagonista, que mostra algumas inseguranças, fala de plástica, de procedimentos e de botox, exala maturidade no melhor sentido, trazendo o romance com o jovem Davi para um espectro de afeto e inteligência emocional interessante.
