Sugar Cane Alley | 2025
São perenes as marcas da colonização. Por onde passou, arrastou culturas, famílias, línguas, costumes e vidas. Alguns colonizados foram capazes de se desgarrar de seus opressores, após lutas intensas que resultaram em uma pretensa independência, que fez reconhecer o status como nação autônoma. Outros, por outro lado, viram-se forçados a aderir, sem opção, a identidade colonizadora. É o caso da Martinica, ilha do Caribe invadida pela França, para onde foram levados africanos escravizados no labor amargo dos canaviais. Hoje, a região é tida como território ultramarino francês, uma parte da Europa na América Central.
Sugar Cane Alley, dirigido pela cineasta martinicana Euzhan Palcy, homenageada da 49ª Mostra São Paulo com o prêmio Humanidade, retrata a região no período pós-escravização, na década de 1930, quando o trabalho forçado apenas muda de roupagem: os açoites são proibidos, mas os donos do capital que pagam salários ínfimos são os mesmos que outrora eram senhores, persistindo as condições precárias de sobrevivência. Neste cenário, numa vila construída em meio aos canaviais, a comunidade negra trabalhadora resiste como pode às estratégias de opressão, principalmente, através da transmissão de saberes e da tentativa de preservação da dignidade dos mais novos.
José (Garry Cadenat) é a materialização da esperança nas próximas gerações. Os mais velhos, cansados demais para lutarem por si, o fazem às duras penas pelas crianças. O menino protagonista é criado por sua avó “Ma Tine” (Darling Légitimus), idosa que usa as forças que não mais possui para que o neto possa estudar, consciente de que a educação é o único caminho capaz de viabilizar a “aquisição” de uma liberdade concreta, a porta de saída do ciclo aprisionador dos canaviais. Com o corpo cansado, as pernas inchadas e os pés grossos, Ma Tine educa com rigidez, e mesmo quando parece não haver outra saída à José que não aceitar o suposto destino de permanecer naquela sina, ela se desdobra para evitar que o neto seja iniciado no trabalho indigno.
O menino José, de fato, é um ponto fora da curva em meio a tantas pessoas daquela comunidade que permaneceram escravizadas na prática. O esforço da avó o faz dedicado, chamando atenção para si na escola, tornando-se o melhor da turma, ao passo que assiste a outros de sua idade ou até mais novos submeterem-se, sem escolha, às mesmas misérias de seus antepassados. Nossa visão de filme é sua visão de mundo como mente que observa, aprende com pessoas das mais diversas gerações – ele adere à educação do colonizador, sem deixar de absorver os saberes ancestrais, especialmente na figura de Médouze (Douta Seck), uma espécie de griô narrativo e guia espiritual do menino.
Não se ignora – que fique evidente – que mesmo os países proclamados independentes passam por constantes processos de neocolonialismo através do capitalismo. Formas diversas de domínio territorial e de povos, não praticadas com base na violência física, nos são impostas todos os dias, e visam apagar, sutilmente, a identidade e a cultura para a dominação de outros países que se julgam mais fortes. Entretanto, em Sugar Cane Alley, estuda-se a resistência da identidade daqueles que nunca superaram a colonização de expansão de territórios, o que se dá pelo uso das ferramentas do próprio colonizador.
Euzhan Palcy é sofisticada e direta na composição dos contrastes culturais da Martinica, traçando essa panorama por meio da costura de uma introdução e de um fim fundamentados em registros e fotografias reais de espaços e de um povo forçadamente ocidentalizado, com vestimentas europeias, usando dinheiro francês e frequentando a igreja cristã em plena América Central pós-escravização, sob a melodia de um piano mecânico em tom alegre que parece não caber ali.
A luta de José representa a história de resiliência de um povo todo, que tenta se equilibrar entre dançar a dança do dominador e manter-se próximo dos seus, de suas raízes ancestrais. Graças à avó, o menino se educa em prol de uma vida melhor. Em virtude dela, outrossim, ele não se afasta daqueles que, ainda que muito debilitados, trabalham por horas seguidas em ritmo desumano, sem intervalo sequer para urinar, sob o sol forte e o calor, visível no suor intenso que brota daqueles corpos vistos como mero instrumento de trabalho. “Nós somos livres, mas nossa barriga tem fome”, Médouze ensina a um atento José, num diálogo que é quase um transe. Para o ancião, o sonho de liberdade, de pertencer à África novamente, virá com a morte. Para o jovem, a libertação está ao alcance das mãos, e ele a carrega nos livros que estuda.
