Superman | 2025

Superman | 2025

Por Carol Ballan

É difícil encontrar uma pessoa na atualidade que não conheça a história do Super-Homem, considerado o pioneiro dentro dos quadrinhos de super heróis e que se tornou uma indústria gigantesca no século XX. Talvez menos conhecida seja a história de seus criadores, Jerry Siegel e Joe Schuster, ambos filhos de imigrantes europeus que saíram de seu continente natal devido ao crescimento do anti-semitismo. Eles se conheceram durante o período da escola e, fascinados com a ficção científica, foram ao longo de anos criando a história deste alienígena forçado a sair de seu planeta de origem e enviado pelos pais para a Terra, onde teria condições biológicas de sobreviver. No nosso planeta, a sua característica da super-força se torna clara, e ele passa a ajudar a humanidade contra atos de vilania.

Ao longo dos anos, o personagem teve diversas mudanças e uma dezena de adaptações para o cinema e televisão. Se em cada nova versão existem peculiaridades e dimensões do personagem a serem exploradas, desta vez, o que o diretor James Gunn propõe soa quase como um retorno às suas origens. E, em uma atitude notável, já começamos a obra vendo a sua queda após uma batalha, com créditos iniciais nos mostrando que aquela é sua primeira derrota. Temos então um homem de aço que pela primeira vez não conseguiu cumprir a missão de manter a humanidade a salvo. Mais do que isso, sua falha talvez não seja apenas física, mas também de julgamento, pois ao se colocar ao lado do país mais fraco em um confronto militar que envolve nações aliadas, ele gera também uma crise diplomática para o governo estadunidense.

Conhecendo um pouco do diretor, que reconhece e sabe lidar bem com a importância política da cultura popular, percebe-se que suas referências são bastante claras tanto em relação ao atual conflito entre Israel e Palestina, quanto às referências ao governo de Donald Trump e sua aliança com as big techs, incorporadas ao roteiro na figura de Lex Luthor (Nicholas Hoult). Unindo isso ao seu conhecimento infinito sobre o universo de quadrinhos, ele consegue unir a diversão de um filme de aventura com a resposta a uma questão muito relevante nas últimas décadas: após o efeito que a Marvel teve em criar um universo de heróis muito popular e rentável e agora em crise, ainda faz sentido criar um filme de super-herói?

Se Gunn já conseguiu nos emocionar com um guaxinim antropomórfico em Guardiões da Galáxia, a tarefa com um personagem icônico é mais fácil, mas a responsabilidade é muito maior. Seu Superman, interpretado sobriamente por David Corenswet, carrega em si a fé na humanidade que é tão característica desta figura quase mitológica. Ele está pronto para lutar quantas vezes for necessário para cumprir seu propósito, e mesmo quando tem uma crise de identidade, é capaz de se recompor sem jamais esquecer de sua ética. Quando esta se mostra dissidente de uma diretriz governamental, ele permanece ali e lida com as consequências de seus atos, o que por si só é um milagre na era de políticas de contingências de crises, com vídeos de roupas brancas explicando situações e dizendo que “quem me conhece, sabe que…”. Ou seja, por mais que o personagem seja muito transparente em seus atos e por vezes até inocente, ele exibe um caráter de compreensão de sua figura e de suas responsabilidades que se destaca de um mundo real cada vez mais sombrio.

Junto a esse personagem se juntam muitos outros, por vezes conhecidos e por vezes mais obscuros. O diretor assume, por exemplo, que o público conheça Lois Lane (Rachel Brosnahan), a jornalista implacável que também já foi apresentada em muitos outros filmes do mesmo universo, e faz bem ao colocá-la como curiosa através de suas ações na trama ao invés de apenas citar um currículo de suas ações no passado. Só que, por vezes, Gunn perde um pouco a mão em relação ao conhecimento prévio, já que muitas das piadas e sacadas não fazem sentido quando não temos essa referência pretérita do personagem, como é o caso do Lanterna Verde interpretado por Nathan Fillion. Há pequenas piadas colocadas para os fãs mais fieis que não atrapalham tanto o andamento da obra, mas que também presume-se um fanatismo que, quando inexistente, atrapalha o funcionamento do próprio filme.

Outro acerto é no tom de Superman, que mesmo trazendo assuntos extremamente relevantes, não deixa que isso afete sua luminosidade. Ao assumir o visual clássico com o personagem, utilizando a cueca para fora da roupa, seria difícil colocá-lo em um ambiente extremamente sombrio e realista. Há uma cena em particular, quando Clark Kent e Lois Lane estão conversando na sala enquanto ocorre uma invasão alienígena na cidade ao fundo, que deixa claro que este é um universo novo, completamente afastado do que Zack Snyder havia proposto em todo o universo cinemático da DC criado previamente. Explosões em roxo acontecem ao fundo, com outros heróis voando de um lado para o outro – enquanto no primeiro plano, ocorre uma cena de alto valor afetivo. É um “se levar menos a sério” que diverte e encanta, algo que uma obra do assunto não faz há bastante tempo.

Assim, o novo Superman se mostra um ponto interessante de virada quando pensamos nos universos cinematográficos e seus caminhos passados e futuros. Ele não apenas simboliza um recomeço para a DC, mas uma possibilidade narrativa e mercadológica para uma indústria que se via imobilizada.

Nota:

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