Tell Me What You Feel | 2026

Tell Me What You Feel | 2026

Aqueles sentimentos que calamos na vida cotidiana podem, muitas vezes, ser sublimados por meio da arte. O verdadeiro artista não atende à demandas mercadológicas, mas sim a chamados internos, desejos reprimidos, traumas, dores, sentimentos que refletem a sociedade e a forma como é compreendido por ela em suas obras. Em Tell Me What You Feel, de Łukasz Ronduda, observamos a complexa relação de Patrick (Jan Sałasiński) consigo mesmo, um pintor que diz o que sente através da arte, mas não é capaz de o fazer diante dos outros, enquanto tenta superar a conturbada relação que tem com os pais desde a morte de sua irmã gêmea quando eram adolescentes.

O retrato de Patrick como “desajustado” já se dá na primeira cena, quando aparece olhando suavemente os acontecimentos a sua volta, até ser chamado por sua mãe a agir para ajudar os pais a movimentar objetos pesados. “Vamos, artista!” – ela grita. Há aí uma ideia de que sua posição como pintor não é incentivada e muito menos aceita pela família, pelo contrário, será recorrente no longa  a associação da arte com inutilidade por parte deles. 

Então, rejeitado em casa, ele transfere a repressão para seus desenhos, algo que faz quase compulsivamente, sempre expressando gritos, dores, solidão e a tristeza profunda que carrega. Saindo do interior para tentar a sorte em Varsóvia, Patrick almeja ter sua obra aceita pela Academia de Belas Artes, mas acaba sempre sendo negado. Sua vida se resume à incompreensão de si mesmo, questionando-se sobre o sentido de viver pela arte, sua única verdade e expressão pura, vendo-se abandonado de todas as formas, incapaz de ter seus sentimentos vistos nas paredes das galerias e reconhecidos pelos outros.

Sua superação começa quando Maria (Izabella Dudziak) cruza seu caminho. Ela também é artista, mas muito mais bem sucedida no que se refere a aceitação e apoio. Maria é criadora do Skup Łez, projeto que recolhe lágrimas de populares em troca de uma pequena quantia de dinheiro. Sua ideia, de maneira simplória, é armazenar os líquidos em dezenas de tubos de ensaio e instalá-los em uma grande estrutura metálica. Patrick  vai até lá em busca de alguns trocados, mas na hora não consegue chorar. Há uma atração imediata entre eles, que logo saem dali para um encontro que termina à noite no apartamento do artista.

Na aproximação dos dois não há julgamentos da parte dela, mas há muitos receios da parte dele, que não sabe como se relacionar e vive algo inédito em sua existência introvertida. Mais consciente, Maria assume a posição simbólica de psicanalista, isto no sentido de ser capaz de levar Patrick até seu inconsciente e enfrentar suas frustrações. Com o passar dos dias, é como se ela mostrasse a ele a possibilidade de ser emotivo, de transparecer aquilo que sente para além dos papéis e telas.

Entretanto, a paixão que floresce e enriquece o filme deixa de ser o foco para priorizar apenas Patrick. Na tentativa de dar mais profundidade à personagem de Dudziak, o diretor abre espaço para demonstrar sua fragilidade na relação com o pai, o qual teme que tenha lhe passado hereditariamente a esquizofrenia, mas acaba fazendo-a soar como mero artifício, uma tentativa de compensação, porém mal feita. Fica a ideia de que todos têm suas dores, mas as dele são mais profundas, o que não parece justo ao olhar que a própria Maria tem.

Inspirado livremente na vida do artista polonês Patryk Różycki, Tell Me What You Feel acaba se enveredando por um percurso tradicional dos romances, quando dois personagens se ligam espontaneamente, um funcionando como remédio às dores do outro (proposta parecida com Bad Painter, presente no Festival de Roterdã do ano passado). Maria carrega Patrick por uma viagem ao encontro de si, dando-lhe forças para chegar à aceitação interna e, posteriormente, à coragem para lidar com seus conflitos familiares.

Ronduda se esforça para construir sua narrativa com sensibilidade, mas a deixa escapar. Mostrar personagens pelo viés psicanalítico clássico não os fazem automaticamente interessantes, pelo contrário, já vimos muito disso no cinema. Por exemplo, há uma cena em que Patrick corre pelo campo gritando o quanto gostaria de expressar melhor suas emoções, como se já não tivéssemos essa certeza durante a primeira hora de projeção. Seus trejeitos já nos dizem isso, seus desenhos também, a trilha sonora igualmente; as vezes em que Maria tem que falar por ele; sua dificuldade de interagir com os amigos dela, também artistas; a simbologia da impotência sexual no primeiro encontro. Há uma sobrecarga de elementos para a mesma coisa, uma preocupação em fechar um círculo narrativo ao invés de adentrar em seus personagens e com eles levar-nos à complexidade de seus sentimentos.

Tell Me What You Feel nos entrega tudo de forma precoce na primeira meia hora e acaba desequilibrado, o restante se mostra redundante. Na ansiedade em expressar emoções como seu personagem principal, o cineasta não percebeu sua insistência em expor a mesma situação diversas vezes, correndo o risco de se perder em meio ao que há de mais banal nos romances atuais: o didatismo e a pressa em resoluções que não trazem nada de novo. Um filme que diz tanto sobre sentimentos, mas que podia nos fazer sentir mais.

Nota:

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