The President’s Cake | 2025

The President’s Cake | 2025

Em 28 de abril de 1990, Saddam Hussein completava 53 anos e acumulava 11 anos ocupando o posto de Presidente da República do Iraque. Naquele ano, o país ainda colhia os amargos frutos da Guerra Irã-Iraque (1980-1988), que ceifou a vida de mais de 1 milhão de pessoas, ao mesmo tempo em que lidava com as dívidas de proporções gigantescas geradas pelo conflito, e um povo social e economicamente devastado, marcado pela fome e escassez de mantimentos. Não bastasse o fim recente de uma guerra, outra tornava-se iminente e ganhava corpo. O Iraque invadiu o Kuwait, o que motivou a interferência dos EUA na região, através da liderança de um movimento de coalizão internacional.

Ainda assim, Hussein mantinha uma tradição lançada por ele mesmo: comemorava seu aniversário com celebrações públicas grandiosas regadas a bolos gigantes que a população fazia fila para comer. Esse o contexto político e social que The President ‘s Cake, dirigido por Hasan Hadi, nos situa em seus minutos iniciais. O caos se faz evidente pelas imagens de uma praça pública, onde multidões se acumulam por um pedaço de bolo, tomates são negociados a preços impraticáveis, e sons de jatos americanos denunciam a presença invasora no local, bem expondo que a batalha travada pela ameaçada população se dá em prol de sua própria sobrevivência.

O longa se passa dois dias antes do aniversário do presidente, e grande parte de sua duração se concentra num único dia. A narrativa se forma ao redor e sob o ponto de vista de Lamia (Baneen Ahmed Nayef), uma garota de 9 anos, designada em sua escola para fazer um bolo em homenagem a Hussein, e sua missão é encontrar os ingredientes para tanto em meio ao cenário de extrema escassez. Os itens são raros, e quando encontrados, de altíssima monta. Residente de uma zona rural, a menina parte para a cidade com sua avó Bibi (Waheed Thabet Khreibat), que a cria, e com o galo Hindi, seu animal de estimação, que a acompanha, comportado, empoleirado numa bolsinha. 

A saga, entretanto, mostra-se uma máscara para os rumos que advirão de uma decisão inevitável e imensuravelmente árdua da avó: a conscientização de que não mais possui condições, físicas e financeiras, de cuidar da neta. Quando a menina percebe o que está acontecendo (aqui, não ousarei revelar mais), foge e se une a um amigo, escolhido para levar frutas frescas em homenagem ao presidente, e juntos (as crianças e o galo), saem por entre as ruas e vielas movimentadas da cidade, para cumprir com a tarefa escolar. A partir daí, The President ‘s Cake se torna um desenrolar de acontecimentos para as duas crianças, que vão sendo levadas por contextos, situações e pessoas, penetrando cada vez mais na desordem urbana, e sofrendo como vítimas primeiras de um regime que as isola da infância muito rapidamente.

As crianças, que sonham em se tornarem presidentes para comer bolo e pepsi sempre que quiserem, nos guiam para evidenciar os contrastes daquele país em conflito. Há belas paisagens e há miséria. Há amizade e há desconfiança. Há inocência e maturidade forçada. Há paz momentânea e bombas sendo lançadas. Tudo diverge e converge concomitantemente. Hasan Hadi nos permite assistir àquela desolação de forma muito próxima, e sua direção busca um naturalismo inerente da situação que quer retratar, sem perder a sofisticação e o apuro estético. As cenas noturnas se mostram as mais belas, e o diretor bem aproveita as possibilidades de sombra e o jogo de luzes advindos do fogo sempre presente, seja através de fogueiras refletidas no lago que a menina precisa atravessar para chegar à sua casa, seja nos lampiões que iluminam as casas, encontrando belezas que vão funcionar como pontos de calmaria.

A câmera de Hasan Hadi, de certo modo, emula a nossa presença, ali, como terceiras pessoas observadoras, cumprindo um papel de vai além de apenas ilustrar. Seus movimentos escoltam aquilo que seria o nosso olhar, pontuais, rápidos e direcionados aos fatos, que tomam proporções cada vez mais duras. A simples tarefa de fazer um bolo causa sofrimento, traz riscos e gera um cansaço extremo e devastador. Tudo parece infinitamente mais complicado e mais custoso nessa triste jornada infantil, desde o caminho arenoso sob o sol que Lamia precisa seguir para chegar à cidade, até uma usual ida à mesquita.

The President ‘s Cake bebe das fontes inspiradas por Jafar Panahi e Abbas Kiarostami (O Balão Branco, Táxi Teerã e Onde Fica a Casa do Seu Amigo? são visíveis) no interesse pelo olhar infantil em meio a adultos que parecem não compreender suas aflições, crianças sugadas por ocorridos e contextos que se entrelaçam pela rotina, eventos banais que escalam em formatos quase absurdos, e que fazem sofrer aqueles que são menos culpados pelas circunstâncias. Muito embora não haja um discurso político, seu panorama se faz presente em cada ato e consequência amargada pelos personagens, uma leitura direta sobre os impactos catastróficos trazidos pela guerra em cada mínimo detalhe da vida daqueles que, sem escolha, a vivenciam.

The President ‘s Cake foi vencedor do prêmio Caméra d’Or para melhor filme de diretor estreante em Cannes e do prêmio do público da Quinzena dos Cineastas, também em Cannes. Recebeu, ainda, o prêmio da crítica da 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.

Nota:

Author

  • Advogada, cofundadora, editora e crítica de cinema no Coletivo Crítico. Formada pelo Talents Rio da Berlinale e Goethe Institut. Membra do júri da Latin American Critics Awards for European Films.

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