The School Duel | 2024
Matar para não morrer
É notório que o problema do discurso armamentista nos Estados Unidos é enorme, com áreas mais críticas a serem observadas, em locais como a Flórida, por exemplo. Não raro, ouvimos o noticiário internacional alertar sobre massacres em escolas, cinemas e shopping centers, feitos por atiradores jovens e desconhecidos.
Desde 2023, o governador da Flórida aprovou uma lei que permite o porte de armas sem autorização do Estado, liberando e incentivando o acesso a um número consideravelmente maior de pessoas. O local não poderia ser mais providencial para ambientar o thriller distópico The School Duel, primeiro longa-metragem do diretor americano Todd Wiseman Jr, que dirigiu dois curtas-metragens (The Exit Room, 2013 e Army of God, 2016) que trazem abordagens políticas, discussões sobre porte de armas e violência.
O filme se passa na Flórida em um futuro próximo, onde crianças em idade escolar são forçadas a participar de uma competição letal chamada “The School Duel”. A iniciativa extrema é adotada como uma tentativa de frear a crescente onda de tiroteios em instituições de ensino. Com o aval de autoridades, jovens se candidatam e alguns são recrutados em suas escolas.
Filmado em preto e branco, o longa começa nos mostrando a realidade de Samuel (Sammy), um jovem de 13 anos, filho de um ex-militar morto em combate e de sua mãe dona de casa (agora viúva). Adentramos a casa do menino, cheia de memorabílias de guerra e de símbolos religiosos. Com uma família conservadora e rígida, Sammy tenta se virar na escola, lidar com o bullying e com a violência que sofre dos colegas, por ser um menino pequeno e magro.
As armas são tratadas como fetiche em The School Duel, com o mesmo fetiche que move as mãos perigosas de quem as manuseia com inconsequência e fúria. Maltratado na escola e com um comportamento reativo diante das injustiças que sofre, como quando os alunos mais velhos o encurralam no banheiro, o fazendo perder a Dog Tag (placa de identificação usada principalmente por militares) de seu falecido pai, Sammy chama a atenção de um olheiro do programa que leva jovens a um campo de batalha para um confronto mortal disfarçado de redenção.
Como uma mescla de The Purge (franquia de terror americana que passa numa versão distópica dos Estados Unidos onde, uma vez por ano, durante 12 horas, todo crime é legalizado) e filmes de battle royale (termo usado para descrever uma situação onde a matança é a única saída) como Batalha Real, 2000 e a série de filmes Jogos Vorazes, The School Duel tenta chocar pela temática tão relacionada ao real, onde um menino de 13 anos, vivendo um romantismo militarista herdado de seu pai, se sente contente em participar de um duelo mortal com colegas por algo que no fim, ninguém acredita.
O longa mantém uma rigidez estética, usando lentes mais angulares que nos trazem à lembrança salas de tortura, acentua a palidez e frieza dos acontecimentos com o alto contraste do preto e branco para retratar o niilismo frio de uma realidade que é totalmente despreocupada com questões humanitárias. O que prevalece é a lei do mais forte ou a do mais esperto.
A jornada curta de Sammy é um pouco apressada, e no furor do discurso e da crítica direta, The School Duel deixa de lado abordagens mais sensíveis e um olhar mais cuidadoso para as feridas internas de seus personagens. A premissa do filme trata de trocar prováveis mortes por mortes certas, unida a um sistema corrupto em um contexto de seriedade que nos inspira pensamentos de maior descrença em um mundo menos violento.
Esse texto faz parte da cobertura do Fantasia International Film Festival, acompanhe aqui.
