Uma Batalha Após a Outra | 2025

Uma Batalha Após a Outra | 2025

Um épico que satiriza o autoritarismo americano e muito mais

Paul Thomas Anderson é um diretor que não para, ressurge, renasce e se reinventa. Com uma carreira recheada de filmes aclamados pela crítica e por cinéfilos de todo o mundo, o americano lança seu décimo longa metragem, que, ao contrário do último (Licorice Pizza, 2021) onde Anderson apresenta um romance jovem, agridoce e melancólico, em Uma Batalha Após a Outra, ele esbanja críticas à política autoritária dos Estados Unidos, assim como à sua cultura impregnada de racismo, homofobia e xenofobia.

Construído com base em personagens fortes, que vão dar ao longa uma pegada explosiva, mais do que sua própria trama que utiliza uma estrutura simples, mas repleta de ingredientes complexos. A força do filme está em seu discurso, e também no aprofundamento das personalidades do casal de ex-revolucionários Perfídia (Teyana Taylor) e Bob Ferguson (Leonardo Dicaprio) e do militar Cel. Steven J. Lockjaw (Sean Penn), todos eles com interpretações magníficas. A melhor atuação de Penn em muitos anos e a estréia de DiCaprio em um filme de PTA como uma figura cômica, uma espécie de Jeff Lebowski com o cérebro mais derretido e com princípios políticos mais radicais.

O filme é baseado (bastante) livremente no livro Vineland, de Thomas Pynchon, publicado em 1990, autor que já tinha recebido a adaptação por Anderson em Vício Inerente (2014). O diretor conta em entrevista ao portal The Playlist, que há 20 anos planeja esse filme e comenta sobre sua decisão de interferir nos rumos da obra e não seguir fielmente a obra de Pynchon: “Comecei a trabalhar nessa história há 20 anos com o objetivo de escrever um filme de ação e perseguição de carros, voltando a ele a cada dois ou três anos. No início dos anos 2000 pensei em adaptar ‘Vineland’, de Thomas Pynchon, um livro sobre os anos 1960 publicado por volta de 1980. Fiquei tentando decidir seu significado após tanto tempo. A terceira ideia que pairava na minha mente no período era de um personagem revolucionário. Então, na verdade, eu vinha puxando todos esses fios diferentes, e, de certa forma, nenhum deles jamais me abandonou”.

Anderson cria um thriller de ação cômico, cheio de ironias e deboches sobre as idiocracias estadunidenses. Com ritmo muito acelerado, montagem frenética usando super-closes no rosto dos atores, como nas batalhas de filmes western, Uma Batalha Após a Outra faz suas quase três horas de duração fluírem bem, mas não sem deixar ecoar alguns excessos. Um homem branco, cis, hetero e americano, falando de tantas causas que não o representam pode soar condescendente. Porém, a representação do típico macho homofóbico na pele do militar interpretado por Penn, que faz de tudo para se encaixar em num grupo supremacista branco que comanda os Estados Unidos na realidade (nada) distópica do filme, negando a si mesmo e sua atração por mulheres de pele escura; assim como a força das freiras negras, feministas e armadas, que representam toda resistência à uma normalidade e a um conformismo simplista dentro do sistema, redimem e representam a vontade do diretor de chamar atenção de forma grandiosa, usando a caricatura e impregnando a tela de radicalismos.

Embora o protagonismo em Uma Batalha Após a Outra esteja nas mãos de DiCaprio, amparado no antagonista interpretado por Penn, são as mulheres as figuras mais fortes no filme. O trato de Anderson para com suas personagens é algo que há muito esperamos do cinema hollywoodiano, um destaque feminino onde nem a sexualização exacerbada e nem a fragilidade, muitas vezes empregada a nós, é usada. O longa destaca atrizes negras em papéis importantes: além de Teyana Taylor como a radical revolucionária que pouco aparece, mas representa um pilar no filme, Regina Hall, num papel de apoio, mas uma peça chave para as movimentações mais marcantes da trama, e Chase Infiniti, estreando em longas-metragens como a filha da revolução, representando o futuro e a esperança de continuidade da luta.

Ainda que Perfídia seja uma mulher extremamente sexual, sexy e livre, está longe de ser um fetiche masculino idealizado, ela é o oposto do padrão, passível de ser “odiável” por muitos, por representar uma mãe que não se coloca no papel que a sociedade espera dela. Em uma cena icônica, sentimos o peso da importância que a personagem dá a maternidade em contraponto com seus ideais: uma mulher grávida com uma barriga imensa disparando uma metralhadora, pronta para enfrentar o mundo e sem disposição para abdicar de sua luta para virar uma tradicional “mãe de família”. Esse papel, no entanto, acaba ficando para Bob, que se vê pai solteiro, estaciona totalmente seus ideais e engajamentos revolucionários e lida com a tarefa de cuidar de um bebê. 

O longa se ramifica e se arrisca ao tratar de assuntos políticos em um escopo mais amplo. O  personagem de Benicio del Toro, Sensei Sergio St. Carlos, é um belo exemplo disso, vemos o filme se abrindo para questões urgentes e atuais como a xenofobia americana e seu combate à imigração. 

Esteticamente Uma Batalha Após a Outra se mostra primoroso, seja nos já citados planos super fechados, quanto nos planos abertos nas cenas de perseguição na estrada que brincam com a elevação do solo, fazendo um jogo de gráfico muito interessante, seja nos takes noturnos explorando a cidade dos becos aos terraços, num espetáculo visual onde em uma tentativa de fuga o personagem de DiCaprio é guiado por jovens skatistas filmados em silhueta, numa corrida insana com saltos de parkour sob os prédios, a qual o Bob, fora de forma e fisicamente debilitado, obviamente não consegue acompanhar.

Uma Batalha Após a Outra é um filme plural, atual, combativo, potente e eletrizante. O gênero de ação sendo explorado com nuances afiadas de crítica política e comédia, com tramas e subtramas que agradariam a Quentin Tarantino. Cotado por muitos como o filme do ano de 2025, ele se mostra espetaculoso e com presença suficiente para sustentar tal título. Paul Thomas Anderson exibe um amadurecimento como cineasta que o eleva ao patamar de diretor que consegue extrair de cada micro comentário, uma palatável discussão que pode ganhar escopos cada vez maiores à medida que o filme é assistido e reassistido.

Nota

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  • Jornalista carioca, editora e crítica de cinema. Tem foco de interesse e pesquisa em cinema de gênero e feito por mulheres.

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