Urchin | 2025
Em sendo nós habitantes do terceiro país com maior população carcerária do mundo, (o Brasil ultrapassou 850 mil pessoas presas em 2024), torna-se, inevitavelmente, um exercício comparativo assistir a filmes que retratem as estruturas do sistema prisional de outras nações que não integrem esse pódio tão significativo do quanto continuamos falhando como humanidade. Não que Urchin, longa de estreia de Harris Dickinson na direção, trate exatamente a respeito desse sistema na Inglaterra, mas certamente a trajetória de seu protagonista, Mike (Frank Dillane) é reflexo de seu funcionamento e do modo como a sociedade recebe ex-detentos em ressocialização.
Premiado na mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes com o prêmio FIPRESCI de melhor filme e melhor ator para Frank Dillane, a obra chega ao Brasil pela 49ª Mostra SP. Mike é um jovem dependente químico em situação de rua, que após cometer roubo contra um homem que o ajudava, retorna à prisão para o cumprimento de uma pena de 14 meses, a qual cumpre parcialmente em regime fechado para ser liberto e posto em processo de reintegração social. Acompanhamos, então, sua jornada de recuperação da dignidade perante um mundo que lhe é hostil e desconhecido – o da pretensa normalidade social.
Estamos diante de uma Inglaterra que dá a seus detentos assistência e aconselhamento social, uma estrutura que lhe fornece moradia temporária num albergue, lhe insere num programa de meditação via app de autoajuda, audiência de conciliação com a vítima, e que lhe possibilita oportunidades de trabalho em estabelecimentos parceiros na contratação de ex-detentos. Mike começa a laborar como chef de cozinha no restaurante de um hotel, e desajustado, a estabelecer relações de convívio e amizade com colegas de trabalho. Atividades rotineiras, como jogar conversa fora, atender as reclamações de um cliente, vestir-se, ir ao karaokê e associar-se amorosamente, integram um mundo que lhe é estranho, e ele soa como uma criança forçada a descobrir um novo modo de viver, aprendendo a passos lentos e dados com muito empenho.
A grande hipocrisia, ou ainda, o evidente descaso estrutural do qual Mike é vítima, é demonstrado por Dickinson não somente como fruto de um sistema governamental em específico que fornece um acolhimento pretenso e limitado, mas também da ação individual das pessoas que fazem parte de sua trajetória de recuperação. Não há, claramente, chance de erro para ele. Ao doente químico nutrido de grande esperança de uma nova vida, o menor dos deslizes é respondido com exclusão. A maior evidência dessa hipocrisia generalizada vem de seu relacionamento com Andreia (Megan Northam). A namorada o acolhe até certo ponto, e vestindo uma camiseta com os dizeres “fight poverty”, ela o expulsa com repugnância quando ele já mostra-se, novamente, aprisionado em seus vícios.
O diretor provoca ao retratar a vítima sem torná-la aprazível. Mike é sujo, usa roupas de segunda mão furadas, mostra-se, na maior parte do tempo, ferido e mal vestido, ainda quando se vê feliz consigo mesmo por comprar uma vestimenta melhor. Por sua representação visual, em figurino e maquiagem, já somos capazes de imaginar, ainda, que ele cheira mal. Dickinson nos desafia a manter a empatia por um personagem de moralidade corrompida, que é violento e desagradável. Nessa esteira, Urchin mostra-se mais um estudo de personagem do que uma crítica social, com a qual parece não estabelecer compromisso profundo. O tom de deboche que prevalece em alguns momentos instiga a reflexão sobre a leitura de nossos olhares sobre esse protagonista: vê-lo sóbrio e feliz é estranho, de modo que quando há alguma esperança, tudo soa artificial.
A palavra urchin, em seu sentido biológico, corresponde à denominação de uma espécie de ouriço-do-mar, animal espinhoso. Em seu significado figurado, o termo é lido como menino travesso ou criança de rua, expressando uma condição marginal. “Pare de falar comigo nesse tom, como se eu fosse uma criança levada”, requer Mike ao ouvir as explicações de seu advogado a respeito de seu encontro com a vítima do crime pelo qual ele foi condenado, dadas em cadência infantil e pausadamente. O tratamento dado ao protagonista é padronizado. Encaixar-se ou não depende do esforço descomunal que ele necessita dedicar para integrar-se socialmente – sozinho, por sua própria conta, enquanto portas se fecham e lhe dizem que ele não pertence. Ele é empurrado ao abismo por aqueles, inclusive, com quem ele pensa nutrir alguma relação de confiança. Resta-lhe aceitar a própria queda.
