Virtuosas | 2025

Virtuosas | 2025

A religião comumente rege comportamentos sociais e posicionamentos políticos e a bíblia, além de espalhar a palavra de Deus, é como uma cartilha para que os cristãos vivam uma vida plena sobre seus preceitos. O conceito de “mulher virtuosa” gira em torno de uma citação em Provérbios 31:10 que diz: “Mulher virtuosa, quem a achará? O seu valor muito excede o de rubis. Uma esposa exemplar; feliz quem a encontrar!”. Em Virtuosas, novo longa dirigido por Cíntia Domit Bittar, esse conceito que hoje é apropriado pela extrema-direita conservadora é abordado de forma satírica, crítica e bem humorada, numa obra que explora o cinema de gênero como impulsionador narrativo.

Estrelado por Bruna Linzmeyer, que encarna Virgínia, uma líder de uma espécie de seita religiosa para mulheres, onde ela prega sobre valores bíblicos e guia as seguidoras baseando-se em ensinamentos de como se tornar uma esposa exemplar, que possa agradar seu marido e a sociedade. Durante um dos cultos de Virgínia há um sorteio aleatório de quatro mulheres que irão a um retiro VIP, uma espécie de spa religioso de luxo, guiado por ela em dias de imersão e interação feminina. São elas: a aparentemente tímida Germina (Maria Galant), que se esforça subornando a coleguinha do lado para poder entrar no retiro em seu lugar; a elegante e frágil Lorena (Juliana Lourenção), mãe recente e esposa de um deputado; Gorete (Brisa Marques) a mais submissa e subserviente a Virgínia e Bárbara (Sarah Motta), entusiasmada e louca para mostrar serviço e potencial nessa jornada.

Bittar cria um ambiente bastante caricato em seu filme, tudo é performático, beirando ao teatral, mas ela não vai tão longe assim da realidade ao replicar comportamentos semelhantes ao de pastores pentecostais sensacionalistas, e o de “mulheres troféu”, como belas, recatadas e do lar, aos moldes da ex-primeira dama do Brasil, Michelle Bolsonaro. No retiro VIP, Virgínia e suas quatro convidadas de honra se isolam em um casarão distante da cidade, cercado por vidros que mostram o amplo verde ao redor. Nele, o dia a dia é preenchido por tarefas que vão de ensinamentos de etiqueta, como arrumar uma boa mesa de jantar, até um papo com situações constrangedoras sobre ovulação e fertilidade.

Lorena vai ao retiro acompanhada de seu bebê e a esposa do político acaba virando a queridinha da anfitriã, gerando alguns atritos entre as demais, especialmente Germina, que parece mais um peixe fora d’água e que faz questionamentos que levanta suspeitas das reais intenções de sua presença ali. Virtuosas começa lentamente a evoluir para um clima de suspense, em meio a rotina de tarefas, o isolamento vai surtindo um efeito estranho em todas na casa. Lorena começa a sentir que existe uma ameaça a seu bebê e Gorete insinua, a partir de um conto que conhece, que pode ser alguma espécie de bruxaria. Cria-se então uma mística em torno da bruxa e um clima que cada vez mais se aproxima da insanidade vai tomando conta das relações entre essas mulheres.

Virtuosas dialoga com filmes nacionais de terror também dirigidos por mulheres como Medusa (2021), de Anita Rocha da Silveira e Raquel 1:1 (2023), de Mariana Barros, também com obras que usam a sátira como crítica ao fanatismo religioso como Amor Divino (2017), de Gabriel Mascaro. Nesse sentido, a direção seguiu uma tendência que funciona, trazendo um humor obscuro e apoiado no cinema de gênero como um potencializador para expor e refletir sobre comportamentos sociais bastante questionáveis. 

O longa aponta nosso olhar para um grupo forte e bastante real das “mulheres virtuosas”, que influenciam outras mulheres e que estão aos poucos se tornando mais poderosas e visíveis social e politicamente. Um alerta para a exaltação perigosa do patriarcado e da mulher como figura que se orgulha da posição submissa. O ultraconservadorismo nunca esteve tão em voga quanto nos últimos tempos, não é mesmo? 

Um ponto alto em Virtuosas é a potencia nas atuações de Linzmeyer como protagonista, esbanjando uma postura rígida, porém cheia de rachaduras que ela tenta esconder na pose de líder; e de Lourenção, que entrega cenas bem marcantes de surtos psicóticos violentos. Também há um belo cuidado com a direção de arte e paleta de cores, em contrapartida há uma insistência em piadas que acabam redundantes, deixando o terror, enquanto gênero, em segundo plano, focando mais no “horror do real”, das situações bizarras que permeiam nossa sociedade atual.

Nota:

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  • Jornalista carioca, editora e crítica de cinema. Tem foco de interesse e pesquisa em cinema de gênero e feito por mulheres.

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