White Lies | 2026

White Lies | 2026

Há um nicho de documentários que muito me atrai: aqueles que partem da ânsia do(a) personagem principal em desvendar seu próprio passado, revisitar um acontecimento marcante e/ou misterioso, responder seus dilemas atuais ou, ainda, registrar uma experiência nova. O tom é ensaístico e intimista, como obras de Jonas Mekas e Agnès Varda, por exemplo. White Lies, de Alba Zari, transita por esse caminho, com a própria diretora se colocando como detetive de sua história, atravessada pelas decisões da avó e as influências na mãe.

Zari teve uma infância atípica, já que sua avó, Rosa, fugiu da família que tinha em Trieste, na Itália, para morar em uma seita conhecida como Children of God na Tailândia, levando sua filha de 13 anos, Ivana, que aos 16 daria à luz Alba. Viveu os primeiros 4 anos de vida em Bangkok, na comunidade hippie, época da qual não tem lembranças claras, mas conta ao espectador a partir de arquivos de fotografias e vídeos. Ela carrega consigo a dor da ausência do pai, que funciona como guia no roteiro e leva à tensões nas conversas com familiares.

Documentar-se nesse nível em um filme é um ato de coragem, visto que há um risco inevitável que decorre da ligação extremamente emotiva com o objeto filmado. Em alguns momentos isso fica evidente em White Lies, principalmente na fluidez entre passado e presente. Talvez pela escassez de arquivos, algumas imagens de antes se repitam para encaixarem nos discursos atuais, ora de Ivana, ora de Rosa. Isso acaba por enrijecer a narrativa que pressupunha uma investigação sutil e cautelosa ao tratar um tema tão espinhoso dentro da família.

Quando está narrando suas boas memórias de infância morando na praia, aparecem filmagens em VHS de Alba com o irmão e sua mãe brincando na água. Estas mesmas surgem mais uma vez quando visita o lugar, agora com Ivana e depois com Rosa, assim como mostra em dois momentos as mesmas fotos da comunidade onde pintava a silhueta do homem que julgava ser seu pai biológico.

Esse problema nasce também de situações provocadas pelas perguntas de Alba que colocam mãe e avó, acompanhadas de Andrea, tio de Alba, em total constrangimento, evidenciado nos enquadramentos detalhados nas mãos que tremem, trejeitos e olhares, quase gerando uma discussão durante o almoço em um restaurante. Existe um pesado interdito à vida das duas no Children of God, todas as histórias de amor livre e a prática do “Flirty Fishing”, quando as mulheres eram incentivadas a oferecerem seu sexo a desconhecidos e trazê-los para iniciação religiosa na seita.

As melhores partes de White Lies se valem de uma “retomada de mão” da diretora que abre espaço para ouvir relatos individuais das duas mulheres que atravessam sua existência e suas incógnitas. Por mais que suas falas exponham o passado, sempre resta algo de nebuloso sobre os anos vividos na Tailândia, ligado ao sexo livre e até a pedofilia que se suspeitava acontecer nos acampamentos. Zari traz essa dor à tona quando questiona sobre a possibilidade de ter sido abusada naquele lugar quando era criança.

A investigação mostra um caminho muito tortuoso, ainda mais quando os que estão à volta não se mostram dispostos a relembrar o que aconteceu e expor todas as feridas. A conclusão em White Lies é acertada, tratando de um passado sempre incompleto, em falta, que inevitavelmente atravessa cada sujeito, deixando marcas às vezes negativas, outras positivas, profundas ou superficiais, mas estão ali, presentes mesmo na ausência.

Nota:

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