Wicked: Parte II | 2025

Wicked: Parte II | 2025

“Eles precisam de alguém mau para que você possa ser boa”. A sustentação da figura do herói depende da existência de um inimigo, de um opositor. A frase transcrita, dita por Elphaba (Cynthia Erivo) a Glinda (Ariana Grande) em Wicked: Parte II, na sequência dirigida por Jon M. Chu, reflete a essência da discussão traçada pela obra em todos os seus formatos. Dos palcos às telas, Wicked transforma o maniqueísmo em farsa espetacularizada, utilizada pelos detentores do poder para manipular e manter oprimidos em suas posições – preservando-se, assim, o próprio poder. O caráter vilanesco atribuído à Elphaba é um mito politicamente construído e oportuno como instrumento do autoritarismo que passa a reinar em Oz. Sua escolha como representante do mal a ser combatido se dá com fundamento na cor da pele e no seu espírito questionador como mulher detentora de poderes mágicos especiais, que oferece, portanto, risco para a estabilidade política, vez que é poderosa, revolucionária e insubmissa demais para aquele contexto.

Se em Wicked (2024) assistimos forjar-se a imagem de Elphaba em vilã pelo mágico (Jeff Goldblum) e Madame Morrible (Michelle Yeoh), aqui Chu nos lança no desenrolar da opressão propriamente dita, desenvolvida a partir do discurso de ódio motivado em face da figura da vilã e disfarçado pelo manto da exuberância de cores e falsa magia que mantém o povo submisso e esperançoso. O autoritarismo mascarado de felicidade expande cada vez mais o público alvo da perseguição sistemática a minorias e diferentes: animais e Munchkins são forçados a permanecer em Oz, e quando não são presos, são submetidos a trabalhos forçados. Quem luta a favor dos perseguidos é, justamente, aquela que perdeu seu nome para ser conhecida simplesmente como bruxa má do oeste, Elphaba, a vilã que nunca existiu.

A compreensão desse contexto inicial de Wicked: Parte II é muito rápida, direta e didática, ritmo que se mantém durante toda a projeção. Já em sua cena inicial, Chu imerge o espectador no campo cinzento, barrento e desolador sobre o qual está sendo construída a estrada de tijolos amarelos, abrindo o primeiro dos muitos contrastes que reforçarão a ideia de aparência de felicidade. A Oz pelo Amanhã é fruto do trabalho escravo proveniente da exploração de animais, que são violentados, feridos e constantemente açoitados naquele ambiente, onde a devastação é colocada debaixo do amarelo muito vivo dos tijolos e do verde chocante do gramado que compõem a estrada. Elphaba lidera a sequência de ação de libertação dos animais, sendo em seguida perseguida pelos guardas-macacos que ela mesma ajudou a criar, e que trabalham para o governo do mágico farsante. Aqui, já dimensionamos de que lado ela está nessa luta e somos convidados a conhecer as injustiças praticadas contra ela.

A partir da introdução incansável, Wicked: Parte II não se permite muitas pausas. Com muitos acontecimentos a registrar, a ação caminha lado a lado com as canções do musical original, e o objetivo é muito claro: emocionar e nos manter conectados o tempo todo. Nesse universo, há o mal real (o autoritarismo de Oz e Morrible), que se perpetua pela estratégia da ilusão, e o mal simulado (a bruxa má do oeste), e o grande mote narrativo é o combate entre eles. No meio do caminho, há Glinda e Fiyero (Jonathan Bailey), que, unidos por um relacionamento de aparências (como tudo ali), tentam se equilibrar entre sustentar o sistema, como representantes do exemplo de felicidade que o povo deve seguir, e discordar, inertes, com a vilanização de Elphaba. 

Enquanto a “falsa malvada” luta, a jornada de transformação pertence à Glinda. Perene em seu trono como bruxa boa, ela faz parte da estratégia que ilude o povo. Por trás de sua aparência exageradamente rosa, delicada e perfeita, paira a melancolia pela percepção de que ela mesma está se enganando. Chu introduz flashbacks que remetem à infância da não-bruxa para dar maior estofo às suas frustrações como desprovida de magia, que soam didáticos em excesso e não agregam ao que já conhecemos da personagem (de se mencionar que a peruca loira e longa da pequena Glinda é pavorosa). 

Ainda que exista algum nível de “amarra” da trama com relação ao musical da Broadway,  é certo que a obra cinematográfica não lhe deve fidelidade. Tratam-se de dois formatos diversos de arte, e a adaptação não guarda qualquer obrigatoriedade com a original.  Entretanto, em que pese tal possibilidade, causa estranheza e desconforto que o impulso transformador de Glinda seja uma decepção amorosa que impõe rivalidade feminina entre amigas. Reforça-se o antifeminismo da figura masculina que precisa ser disputada entre duas mulheres que se opõem, e muito embora Chu insira graça e humor em certos momentos dessa afronta, colocá-las em vias de fato por um homem soa um tanto constrangedor, ainda que haja reconciliação e amadurecimento posterior.

Quando Wicked: Parte II reflete o artifício como instrumento de ilusão, e a ilusão como forma de controle (tudo é palco e ele esconde a opressão), não deixa de questionar a natureza da arte como forma de fuga – para o bem ou para o mal. Aquilo que ofusca a realidade, a vida baseada no sonho, pode retirar a importância da emoção real, e é indiscutível que a arte eleva o ato de sentir. Chu cria uma atmosfera de infelicidade oculta (a melancolia anteriormente mencionada) muito da sofisticação de seu elenco. À exceção de Elphaba, todos aqueles que pertencem à Oz parecem dizer e sentir coisas opostas e em permanente conflito diante da insuportabilidade do uso da “arte de iludir” para disseminação do discurso de ódio e repressão de minorias. De se mencionar que a capacidade de Ariana Grande de transmitir esse impasse interior através de uma expressão facial que oscila exaltação e exaustão num piscar de olhos é fabulosa. 

Jon M. Chu parece disposto a agradar a todos os tipos de públicos, de fãs à desavisados. Cruza Wicked: Parte II com O Mágico de Oz sem comprometer-se. Apenas assistimos, de longe, a história de Dorothy se desenrolar como mais um meio de ação utilizado por Madame Morrible contra Elphaba, sem que sequer vejamos o rosto da menina, mostrando uma distância respeitosa sem deixar de prestar homenagens ao clássico. Se há prática de excessos – de cores, de flores, de luzes, de dinamismo, de frases de efeito e de ação – esses parecem funcionar se considerarmos a ideia primeira da obra: a ilusão como instrumento de manipulação requer camadas e mais camadas de máscaras, artifícios e mentiras.

Nota:

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  • Advogada, cofundadora, editora e crítica de cinema no Coletivo Crítico. Formada pelo Talents Rio da Berlinale e Goethe Institut. Membra do júri da Latin American Critics Awards for European Films.

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