Decisão de Partir | 2022

Decisão de Partir | 2022

“No momento em que você disse que me amava, o seu amor acabou. E quando seu amor acabou, o meu começou”.

Os sentidos e a expressão humanas tornam possível que não ditos sejam interpretados através de recursos corporais. Uma troca de olhares, um olhar desviado, uma postura ereta, um sorriso na hora errada, um aceno com a cabeça ou com as mãos, uma longa respiração, todos esses recursos podem dizer muito sobre uma pessoa. Nas relações humanas, estamos permanentemente buscando decifrar uns aos outros, e na falta de clareza, somos livres para interpretar até a obsessão.

Park Chan-wook encontra uma forma narrativa de abordar a urgência de interpretação mútua nas relações humanas através de uma história cuja premissa parece convencional. Na cidade de Busan, na Coréia do Sul, o detetive Jang Hae-jun (Park Hae-il), durante a investigação das circunstâncias de uma morte, torna-se obcecado pela principal suspeita, Song Seo-rae (Tang Wei), a esposa do falecido, uma mulher de personalidade misteriosa. A fuga da narrativa convencional, entretanto, começa quando Park Chan-wook define sua suspeita: uma mulher estrangeira, de nacionalidade chinesa, com dificuldades de se comunicar em coreano.

A capacidade de Park Chan-wook de envolver o espectador já é conhecida aos admiradores de A Criada, filme aclamado em 2016. Seja pela decupagem dinâmica e ousada, seja pela forma como brinca com a montagem e o tempo do filme, em Decisão de Partir o diretor amplamente faz uso das capacidades que a câmera lhe propõe com elegância, o que enriquece a narrativa e nunca cansa o espectador.

Tais recursos, assim como os inúmeros recortes contidos na mesma cena, não são levianos ou despropositados. Decisão de Partir é um filme investigativo, o que naturalmente abre espaço para que ele apresente inúmeros pontos de vista e encontre relevância nos detalhes. É aqui que entram não só os meios corporais de interpretação dos personagens entre pensamentos não ditos, mas também o uso de recursos externos por eles como meio de busca de clareza.

O protagonista Jang Hae-jun, antes de iniciar suas investigações de campo, faz uso de colírio. Faz uso do celular para gravar falas e anotações suas sobre as investigações. Song Seo-rae utiliza-se do tradutor para se fazer entender melhor: ela fala ao celular, que traduz o chinês para o coreano ao seu interlocutor. Os personagens se comunicam por mensagens de texto. Ouve-se com frequência áudios gravados no celular em busca da expressão de um sentimento, de um vácuo que signifique algo. Há sempre algo a intermediar contatos, visões e sentimentos oprimidos.

A sensação de que a câmera está dentro de olhos (vivos e mortos), telas de celulares, de binóculos, de vidros, amplificam a sensação de stalking, da obsessão humana de desvendar fatos e pessoas. Uma frase importante do protagonista bem reflete esse sentimento: “A maioria das pessoas assassinadas é encontrada com os olhos abertos. Prometo a elas que vou descobrir quem foi a última pessoa que viram”. Os olhos abertos de um morto muito têm a dizer, mas foram silenciados. O diretor coloca sua câmera dentro dos olhos calados do falecido marido de Seo-rae, enquanto formigas caminham sobre ele. Há muito de macabro nesse filme, o que é contraposto pela elegância de Park Chan-wook.

A opressão de sentimentos pode ser vista, talvez, como mote principal dessa narrativa. O detetive protagonista é casado, mas não é exatamente o casamento que parece impedir a consumação de uma relação entre ele e Seo-rae, mas sim, sua condição de suspeita, justamente essa a condição que parece o atrair. Enquanto o protagonista é um metódico investigador que não consegue dormir porque está sempre de tocaia, Seo-rae, apesar de todo mistério que a envolve, é detentora de uma leveza e uma simplicidade que a fazem dormir enquanto come sorvete. O divisor de águas entre eles (a investigação) parece não ser suficiente para impedir a paixão, mas os mantém a um distanciamento ético que oprime o que sentem um pelo outro.

A própria declaração de amor de Hae-jun para Seo-rae vem na forma de uma frase nada explícita e que foi interpretada dessa forma por ela. “Jogue esse celular no mar, nas profundezas, onde ninguém mais possa encontrá-lo. Estou dilacerado.” A palavra “dilacerado” em coreano é desconhecida da personagem, que procura seu significado posteriormente, apegando-se à frase gravada e às muitas formas de desvendá-la.

Quanto à instituição do casamento, de muitas formas é colocado por Park Chan-wook como um acontecimento racional, muito distante do amor ou da paixão genuína. A esposa de Hae-jun, Jung-an (Lee Jung-hyun), com frequência dialoga com o protagonista com estatísticas sobre a falência ou o sucesso dos casamentos. Um suspeito investigado por ele prefere o suicídio a separar-se da amante. Seo-rae casa-se com homens que nenhum sentimento têm a lhe oferecer. Claramente há um contraponto entre a racionalidade do casamento e a irracionalidade dos sentimentos genuínos.

Assim como em A Criada, Park Chan-wook traz em Decisão de Partir, ainda que na retaguarda, a situação da imigração. Seo-rae, como imigrante chinesa, recebe da Coréia do Sul apenas opressão, mas não pode retornar ao lar. A dificuldade na comunicação, a condição de suspeita, os relacionamentos abusivos e a violência doméstica a colocam num status secundário sob o ponto de vista dos homens com quem se relaciona. “Ela é jovem, bonita e estrangeira. Isso faz dela uma suspeita?”.

O stalking e as cenas de perseguição em Decisão de Partir são uma clara homenagem a Um Corpo que Cai, de Hitchcock, assim como a narrativa como um todo. Park Chan-wook utiliza-se, inclusive, de alturas (através de montanhas, cumes e prédios) e da câmera vertiginosa, remetendo abertamente ao mestre do suspense.

Além da altura, o mar e suas nuances azul e verde são elementos muito presentes na composição da direção de arte, do figurino e até da personalidade de Seo-rae. A personagem declara possuir medo de altura, mas deseja o mar, que está no azul de suas roupas, nos botões brilhantes de seu vestido que oscilam do azul para o verde, no papel de parede de seu apartamento que traz um mar revoltoso como fundo. O oceano é também o destino dos celulares peças-chaves na solução de crimes, instrumentos que carregam todos os não ditos, todos os sentimentos oprimidos, colocados nas profundezas do oceano, ou, ainda, em buracos na areia, onde são apagados, aos poucos, pela maré que sobe.

Nota

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