Armageddon Time | 2022
Há uma porção de filmes bem-intencionados que caem na armadilha proposta por sua própria narrativa e que findam por criar um efeito (talvez despropositado, talvez não) de meramente reproduzir o aspecto social que pretende denunciar. Há, ainda, filmes que, por mais tocantes que sejam, carregam uma narrativa cuja centralidade mostra um suposto dilema que não justifica o arrastamento por duas horas de projeção, justamente por não tratar, exatamente, de um problema de difícil solução. É o caso, por exemplo, de Belfast, filme dirigido por Kenneth Branagh vencedor do Oscar de Melhor Roteiro Original. Por mais sensível que seja o olhar do diretor, ele se perde quando tira o longa do ponto de vista exclusivamente infantil, para tornar muito difícil uma decisão que não o é: pessoas brancas que precisam mudar-se de cidade, pintando como algo próximo do racismo o que sofrerão no novo espaço a ser ocupado. Sabemos que esse dilema não será motivo de sofrimento duradouro para a família, o que esvazia qualquer denúncia almejada pela obra.
Em Armageddon Time, novo filme do diretor James Gray e aclamado no Festival de Cannes de 2022, algo semelhante acontece. Ambientado na Nova Iorque dos anos 80, acompanhamos o olhar de Paul Graff (Banks Repeta), um garoto de família de origem judia com dificuldades financeiras, que busca se enquadrar no “sonho americano”. Enquanto o dilema de seus pais, Esther Graff (Anne Hathaway) e Irving Graff (Jeremy Strong) consiste na impossibilidade de custear o mesmo nível escolar para ambos os filhos, o que faz com que Paul, considerado menos promissor e rebelde, estude em escola pública, o dilema do garoto é, além da mudança de escola, a descoberta de que ele precisa esconder sua amizade com Johnny (Jaylin Webb), um menino negro em situação de vulnerabilidade, em prol do que determinam as instituições e sua própria família. Ou seja, em benefício da manutenção dos privilégios brancos do “sonho americano”.
James Gray talvez consiga tocar o espectador de muitas formas. E é absolutamente certo que sua abordagem gerará identificações. Há um cuidado no trabalho da relação do menino com seu avô, Aaron Rabinowitz (Anthony Hopkins), o que se deve muito à atuação precisa e sensível de Hopkins, como única pessoa minimamente sensata e que possui uma capacidade de dialogar com o neto inexistente nos pais. Entretanto, é raso e machista na forma como retrata a mãe do garoto, como uma personagem que ao mesmo tempo é vista como poderosa pelo filho para protegê-lo quando lhe convém, mas que vê seus ideais consumidos pelos homens da casa que lhe exigem o posto de melhor dona de casa e cozinheira.
Percebe-se a boa intenção de James Gray em retratar uma família branca que quer, a todo, custo, ser elitizada. Há uma crítica ao sistema educacional infantil americano, sobretudo quando se compara as instituições pública e privada, mostrando a última sendo administrada pela família Trump que reproduz e incute nas mentes infantis as falácias da meritocracia. No âmbito da escola pública, fica clara a perseguição gratuita e racista de Johnny pelo professor. Há um silêncio social quanto ao racismo, e o filme utiliza-se muito dos “não ditos” para revelar sua presença em todas as estruturas.
Entretanto, é esse silêncio e a consciência dos privilégios brancos por parte dos personagens que colocam o longa em uma linha muito tênue entre a boa intenção e o racismo. E pende, muito, para o último. A começar pela abordagem totalmente marginalizada do garoto Johnny. Sua vulnerabilidade é notoriamente pouco interessante ao diretor, que retrata a criança negra tal como ela é vista pela sociedade branca. Inexiste qualquer cuidado antirracista nesse retrato.
É um filme de pessoas brancas para pessoas brancas sobre os privilégios de uma branquitude muito confortável em sua posição, e que acaba por reproduzir ao seu público-alvo a ideia de que seus privilégios são fruto de um mundo injusto e nada há a se fazer sobre isso. Porque é exatamente essa a mensagem final que, sob uma trilha sonora muito doce, Irving Graff transmite a seu filho Paul. O único peso a ser carregado pela criança branca por portar esse privilégio é sua consciência. E esse é um problema que logo ele superará.
Filme visto na abertura da 46ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em sessão para a imprensa. Será exibido durante a Mostra e estreará nos cinemas brasileiros em 10 de novembro de 2022.
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