Backrooms: Um Não-Lugar | 2026

Backrooms: Um Não-Lugar | 2026

Em uma era cada vez mais digital, faz sentido que os conteúdos viralizados na internet sejam levados cada vez mais a sério. Baseado na creepypasta mais popular dos últimos anos, Backrooms: Um Não-Lugar chega aos cinemas após alcançar números impressionantes de bilheteria. Na direção está Kane Parsons que, aos 20 anos, reúne experiência e respaldo para transformar os curtas experimentais publicados em seu canal no YouTube, há apenas quatro anos, em uma produção da A24.

Conhecido online como Kane Pixels, o Youtuber começou a publicar a websérie viral The Backrooms em janeiro de 2022. Com produção de nomes como James Wan e Osgood Perkins, o longa assume a difícil missão de transportar para a tela grande a atmosfera de inquietação que tornou o fenômeno tão popular na internet.

A narrativa acompanha Clark (Chiwetel Ejiofor), um arquiteto desiludido com a profissão que agora administra uma loja de móveis nos Estados Unidos dos anos 1990. Seu negócio enfrenta dificuldades financeiras e sua vida pessoal não está em situação melhor. Recém-divorciado, ele passa a dormir no próprio trabalho depois de perder a casa para a ex-esposa. Certo dia, ao notar luzes oscilando no andar inferior do estabelecimento, decide investigar. É então que descobre uma passagem invisível que o conduz para além de uma parede, revelando uma gigantesca sala amarela iluminada por lâmpadas fluorescentes e preenchida por móveis dispostos de maneira estranhamente irregular.

Perturbado pela descoberta, Clark retorna rapidamente ao mundo exterior. Ele tenta desenhar mapas dos espaços que conseguiu explorar e procura a Dra. Mary Klaine, sua psicanalista e espécie de conselheira emocional, interpretada por Renate Reinsve. Convencido de que encontrou algo extraordinário, volta aos Backrooms com o objetivo de registrar imagens e reunir evidências de que sua experiência é real com a ajuda de dois jovens funcionários de sua loja.

Quando o filme nos apresenta esse universo do “não-lugar”, o excelente design de produção de Danny Vermette se destaca imediatamente. As salas parecem se multiplicar indefinidamente, conectadas por corredores e passagens que desafiam qualquer lógica espacial. O resultado remete diretamente ao visual perturbador criado por Parsons na websérie original. Colaborador frequente de Osgood Perkins em filmes como O Macaco, Longlegs e Para Sempre Medo, Vermette demonstra total domínio na construção desse ambiente de estranhamento permanente.

À medida que Clark se deixa consumir pela curiosidade, explorando novas portas, corredores e pequenas aberturas em busca de espaços desconhecidos, somos conduzidos por cenários que mudam constantemente de escala, formato e inclinação. Manequins, cadeiras e sapatos surgem parcialmente enterrados no piso. Móveis aparecem empilhados ou fundidos uns aos outros em composições absurdas. Sofás, cadeiras e objetos idênticos se repetem em sequência, criando uma sensação de deslocamento e artificialidade. Tudo remete a um espaço abandonado, uma espécie de reflexo imperfeito do mundo real, privado de lógica e significado.

O roteiro de Will Soodik amplia a mitologia das Backrooms ao incorporar personagens e conflitos dramáticos. Talvez esteja aí o principal problema do filme. Ao tentar construir arcos psicológicos e reflexões existenciais, a narrativa se afasta daquilo que torna esse universo tão fascinante. Clark passa a enxergar aquelas salas como uma espécie de refúgio para seus fracassos pessoais, uma projeção física de seu vazio emocional. A ideia possui potencial, mas recebe um desenvolvimento superficial.

Mary ganha maior importância na segunda metade da trama. Após ingressar nas Backrooms, passa a ser perseguida por criaturas e protagoniza algumas das melhores sequências do longa. Por vezes ela precisa correr, se espremer em vielas de paredes muito estreitas, escalar escadas a beira de um abismo, como se estivesse em um ambiente selvagem. Nesses momentos, a direção demonstra grande competência ao construir tensão e explorar a sensação de vulnerabilidade dos personagens em um ambiente hostil.

Assim como Clark, Mary também carrega traumas profundos. Enquanto ele afunda lentamente em uma crise marcada pelo fracasso profissional e afetivo, ela permanece presa às lembranças de uma infância difícil, marcada pela instabilidade mental da mãe e pela desestruturação familiar. O filme sugere uma ligação entre essas memórias e as Backrooms, mas a relação nunca é devidamente elaborada. Fragmentos de sua história surgem pontualmente ao longo da narrativa, sem que encontrem um encaixe convincente dentro da mitologia apresentada. Há uma clara tentativa de aproximar a obra de uma estrutura dramática mais tradicional e acessível ao grande público. No entanto, essa escolha enfraquece justamente o elemento mais interessante do filme: a imersão em um espaço que desafia a razão e provoca constante desorientação.

Backrooms: Um Não-Lugar representa um passo interessante para o cinema de gênero contemporâneo ao unir horror e ficção científica em uma adaptação aguardada por milhares de fãs. A obra não chega a ser revolucionária, especialmente porque compartilha algumas características com adaptações recentes de universos digitais, como Exit 8, de Genki Kawamura. Ainda assim, demonstra que histórias nascidas exclusivamente na internet podem encontrar uma tradução cinematográfica eficiente. Diferentemente de tentativas frustradas de levar lendas virais para o cinema, como ocorreu com Slender Man, o filme compreende aquilo que tornou seu material de origem tão fascinante. Mesmo tropeçando ao desenvolver seus conflitos humanos, acerta na construção de atmosfera, explora com inteligência sua mitologia e insere Kane Parsons como um nome promissor do horror contemporâneo.

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  • Jornalista por formação, editora e crítica de cinema carioca. Certificada em cinema pela Academia Internacional de Cinema, é apaixonada por filmes de terror e narrativas sobre serial killers. Entusiasta do cinema independente e de obras dirigidas por mulheres.

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