Madame Brouette | 2002  e Xalé – As Feridas da Infância | 2023 – Mostra de Cinemas Africanos

Madame Brouette | 2002  e Xalé – As Feridas da Infância | 2023 – Mostra de Cinemas Africanos

As obras de Moussa Sène Absa na Mostra de Cinemas Africanos 2023

Moussa Sène Absa é um cineasta senegalês de grande relevância no cinema contemporâneo. Diretor, roteirista, produtor, ator, músico, editor, diretor de fotografia e de som, esse artista multifuncional fornece filmes ao mundo desde 1994. A Mostra de Cinemas Africanos 2023 homenageia sua carreira, exibindo a trilogia do “Destino das Mulheres”, como nomeada pelo próprio Absa, composta pelos filmes Tableau Ferraille (1997), Madame Brouette (2002) e Xalé – As Feridas da Infância (2023), esse último fazendo sua estreia mundial em terras brasileiras.

Abordaremos aqui as obras Madame Brouette e Xalé  – As Feridas da Infância. O diretor conecta essas duas partes que compõem o meio e o fim da trilogia através da semelhança nas estruturas narrativas, no estilo cinematográfico e na jornada de suas protagonistas. Ambos filmes começam por seu ápice e se estruturam em um grande flashback, instigando a atenção do espectador até que o filme retome ao ponto crucial da história contada, que é a morte do opressor.

A protagonista de Madame Brouette é Mati (Rokhaya Niang), uma mulher divorciada que luta para sustentar a si e sua filha pequena, carregando uma carriola para cima e para baixo, vendendo produtos diversos e verduras. É uma mulher independente, calejada pelo machismo, cujo objetivo de vida é  abrir uma bodega que possa dar à sua filha um destino menos duro que o seu. Seus planos incluem também viver e trabalhar com sua melhor amiga, a quem ela salva ao confrontar o marido violento com igualdade de forças. Não há, portanto, homens nos planos de vida da personagem.

Mati, porém, conhece Naago (Aboubacar Sadikh Ba), um policial charmoso e ordinário por quem acaba se apaixonando e iniciando um relacionamento que a faz entrar novamente num ciclo de violência e controle que ela precisa uma vez mais combater.

Madame Brouette é um grito feminino exausto contra a figura opressora do homem. Através da protagonista, ele é também coletivo e geracional, é solidário e afetivo. Mulheres se ajudam e se defendem naquela comunidade. Mati como mãe passa para a filha tais valores de sororidade, sendo ela, inclusive, a responsável por abrir os olhos da genitora para fazê-la perceber o relacionamento abusivo em que estava inserida, a chave para a consciência de sua libertação: “Desde que você o conheceu, você não tem mais vida e nem alegria, e eu fiquei invisível”.

Absa brinca com o espetáculo para desvendar os atos finais da personagem. Ao passo que assistimos o grande flashback das várias ascensões e quedas de Mati, somos novamente remetidos ao acontecimento criminoso do início-fim da obra, onde um jornalista, num tom midiático, sensacionalista e até divertido, entrevista vizinhos e conhecidos de Brouette, que a apoiam ou não, julgam seu caráter, especulam sobre o ocorrido, enquanto, em concomitância, acontece uma investigação policial e a protagonista é interrogada.

A força de Mati/Brouette é tremenda, assim como também o é Awa, a protagonista de Xalé – As Feridas da Infância. Awa é uma criança de 14 anos exemplar, a melhor aluna da classe, a melhor amiga da avó. Suas feridas começam a ser abertas quando ela começa a ser sexualmente objetificada por um seu próprio tio.

Tal como em Madame Brouette, a estrutura narrativa de Xalé – As Feridas da Infância é a mesma. A obra se inicia com uma Awa já adulta num contexto de crime, e o que vemos a seguir é a jornada de sua vida até que cheguemos àquele ponto novamente.

Em ambos os filmes, há um senso de julgamento coletivo e comunitário muito próprio e que não é necessariamente negativo. A ideia de coletividade e união muito presentes nas comunidades retratadas fazem entender que parece não haver exatamente uma justiça do Estado, mas sim uma justiça empírica que dá conta dos pesos e medidas necessários para que se alcance um equilíbrio.

Essa sabedoria coletiva também é confrontada por uma certa batalha de gêneros que é colocada nas duas obras. Enquanto mulheres se compreendem e se defendem, homens também o fazem ainda que seus semelhantes tenham realizado praticas abomináveis e indescritíveis. Porém, esse julgamento das pessoas “comuns” é sobreposto por algumas figuras sábias e ancestrais que permeiam o imaginário dos personagens e cuja presença não é exatamente diegética, e é aí que as obras caminham para uma fantasia que as eleva sobremaneira.

Moussa Sène Absa brinca com o fantasioso ao colocar em Madame Brouette e Xalé  – As Feridas da Infância grupos que cantam, analisam, refletem e, de certa forma, narram os acontecimentos. Os personagens, em regra, não os veem, e quando os veem, fazem parte de um imaginário mais perturbador. Essas figuras ocupam esse espaço de ancestralidade, dão conselhos, julgam, apontam o dedo e proferem bênçãos, tudo através de canções, que concedem uma atmosfera de leveza em que pese os trágicos acontecimentos.

Aliás, a ideia das músicas como entoadoras de bênçãos concede aos longas cenas belíssimas e muito tocantes, que sempre carregam em si a importância ancestral de bendizer os descendentes. Em Madame Brouette, vemos Mati cantar para abençoar a filha que acaba de nascer como primeira coisa a se fazer. Em Xalé – As Feridas da Infância, vemos a avó que bendiz a neta Awa com palavras positivas cantadas, e a presença desses grupos cantantes que celebram a chegada de uma nova criança ao mundo, neste caso, a filha da protagonista.

Entretanto, se em Madame Brouette há uma constância e unidade no respeito e na representatividade, coisa que a maioria dos filmes ocidentais é incapaz de fazer ao trabalhar protagonismo feminino, em Xalé – As Feridas da Infância o diretor parece perder a mão e imprimir um olhar masculino complicado sobre a personagem (e aqui, terei que expor acontecimentos do filme com spoilers).

Awa é vítima de estupro aos 14 anos. Tal como as estatísticas da vida real (no Brasil, 64,4% dos autores de estupro são familiares), a personagem é vítima de seu próprio tio, e engravida. O diretor dá à Awa o direito de decisão sobre ter ou não a criança, sem deixar de expor a posição dos parentes, a favor ou contra. Ao mesmo tempo em que é importante que o aborto não seja exatamente um tabu (nas duas obras aqui analisadas, o aborto é uma opção e não há polêmicas quanto a isso), em casos de violência sexual é delicado demais que se aborde a escolha de uma criança por ter e criar outra criança.

Nesse sentido, o diretor acaba por perigosamente romantizar o contexto e as consequências da violência sexual em Xalé – Aa Feridas da Infância, ainda que o ponto do filme sejam justamente as feridas inapagáveis causadas pelo estupro. Por maior que seja sua consciência de gênero, Absa continua sendo um homem que não corre qualquer risco de sofrer o que mulheres em tais situações sofrem todos os dias.

Há uma certa romantização, ainda, ao trazer a seu filme o problema da imigração ilegal de africanos para a Europa, através de barcos que não oferecem qualquer segurança e que matam diariamente milhares de pessoas nos oceanos. As saídas narrativas fáceis de roteiro que o diretor encontra para propiciar essa oportunidade de vida supostamente melhor ao irmão gêmeo de Awa dão ao assunto um tom de esperança que parece não se encaixar e destoar da crítica sempre presente que faz com que personagens repitam que “Senegal está morta”.

Muito embora presente esse incômodo na abordagem de tais temas, Moussa Sène Absa é dono de uma inventividade muito interessante e construtor de planos lindíssimos, belamente coreografados. A fantasia ancestral que permeia tanto Madame Brouette como Xalé – As Feridas da Infância tornam tudo muito original, uma arte própria que ele se apropria com muita tranquilidade. Há muita força e sinceridade na voz que ele busca fornecer às mulheres, nos dando protagonistas femininas que se apoiam, defendem umas às outras e a si mesmas, donas de suas próprias vidas e destinos, um exercício de sororidade muito genuíno e natural.

Madame Brouette foi exibido no Festival de Veneza em 2003, e recebeu dois prêmios, a incluir melhor trilha sonora. Xalé  – As Feridas da Infância já foi exibido no BFI London Film Festival.

Leia outros textos sobre a Mostra de Cinemas Africanos aqui.

Madame Brouette

Xalé – As Feridas da Infância

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  • Advogada, cofundadora, editora e crítica de cinema no Coletivo Crítico. Formada pelo Talents Rio da Berlinale e Goethe Institut. Membra do júri da Latin American Critics Awards for European Films.

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