Birthright | 2025
O pesadelo de um adulto que precisa voltar para a casa dos pais
Independência financeira e uma vida estável é um objetivo comum para casais que estão prestes a constituir família. Produzido na Austrália Ocidental, Birthright, longa de estreia de Zoe Pepper, é uma história sombria e perturbadora sobre uma geração desiludida em busca do mesmo sucesso que seus pais, da geração baby boomer.
O filme australiano funciona bastante como um thriller de comédia cheio de diálogos espirituosos, como em Cova Rasa (1994), de Danny Boyle. Birthright mescla situações embaraçosas com climas de terror familiar, quando o casal de millennials, Cory (Travis Jeffery) e sua esposa Jasmine (Maria Angelico), grávida e prestes a dar à luz, tem os planos de vida interrompidos por uma crise no mercado imobiliário e a falta de oportunidades de trabalho. Sem dinheiro, praticamente morando dentro do carro e com a casa interditada por uma infestação de cupins, o casal se vê obrigado a pedir ajuda aos pais de Cory, que moram na enorme e confortável residência onde ele cresceu.
Ao tentar reativar laços com Richard (Michael Hurst) e Lyn (Linda Cropper), o jovem casal chega com a pretexto de passar poucos dias, mas logo a intenção dessa visita é colocada em suspeita, quando Lyn vê que há coisas demais no carro do filho. A forma que Richard lida com essa aproximação inesperada de Cory é dura e ao receber um pedido de ajuda financeira, decide aplicar uma lição ao rapaz, dizendo que fique apenas uns dias e procure trabalho. Uma recepção fria e completamente desprovida de compaixão. Por mais que Birthright pareça, em seus primeiros momentos, uma comédia, o filme muda de tom rapidamente, acentuado por uma trilha sonora de suspense que causa tensão a cada olhar torto do furioso pai para o filho que tenta infiltrar-se em sua casa.
A relação de pai e filho começa a se transformar em uma dinâmica perigosa, onde os dois parecem estar nos limites de suas tolerâncias um com o outro. Quando a cordialidade entre os quatro fica mais escancaradamente impossível, o filme ganha mais sarcasmo. Ao usar a esposa grávida como desculpa para ocupar o quarto principal e dormir na cama dos pais, os privando de qualquer conforto e paz, parece que a casa vira uma zona de guerra cada vez mais destemperada.
Birthright foi gravado em praticamente um único ambiente, nos territórios do casarão e seu enorme quintal, onde pai e filho travam uma briga para reativar a piscina que foi completamente aterrada por Richard e que Cory tenta, com o auxílio de uma pá, trazer de volta. O filme então segue um ciclo de provocações que se tornam mais intensas. A impossibilidade de Cory de se sustentar faz com que ele se ache no direito de retomar o espaço onde cresceu e, junto à Jasmine, se questionam como seus pais abastados podem negar ajuda.

Essa guerra por ocupação de território segue uma dinâmica passivo-agressiva interessante, guiada por comportamentos impulsivos dos personagens, que, ao mesmo tempo, tentam manter alguma civilidade, como quando decidem jantar juntos para comemorar os 40 anos de casamento do Richard e Lyn. Jasmine maquia a mãe de Cory e a faz sentir bonita, mas em poucos minutos qualquer tentativa de uma socialização pacífica entre eles se torna um caos. A tensão aumenta e em certo momento nos sentimos assistindo a um filme de home invasion.
Pepper constrói seu longa de estreia com ritmo e humor aguçados, uma jornada insana e original. Com personagens bem desenvolvidos e um elenco enxuto, Birthright é divertido e macabro na medida certa. O terceiro ato pode ser um pouco fora de tom, como uma progressão desenfreada dos acontecimentos absurdos que vêm sendo trabalhados ao longo do filme.
Birthright fez parte da seleção oficial do Festival de Tribeca.
