Vermiglio – A Noiva da Montanha | 2025
A resiliência feminina
Itália, meados da década de 40, no alto das montanhas cobertas de neve, há o vilarejo de Vermiglio. Um ambiente hostil pelo frio e pelo isolamento, mas que abriga pessoas que já estão adaptadas, que vivem na tranquilidade da vida rural, com a rotina muito bem estabelecida. Inspirando-se em suas próprias origens, a diretora e roteirista Maura Delpero nos coloca diante da família do professor Cesare Graziadei (Tommaso Ragno), uma das figuras mais respeitadas do lugar, mas que vê a estrutura de sua casa ser abalada após a chegada do soldado desertor Pietro (Giuseppe De Domenico) e o amor que ele desperta em sua filha Lucia (Martina Scrinzi).
Desde os primeiros minutos da projeção é visível que alguma coisa não está indo muito bem nos arredores. O comportamento das pessoas ali parece tão gélido quanto o clima, sem conversas, sem muitos afetos, exceto por parte das crianças e de uma personagem que difere dos outros por sua rebeldia, Virginia (Carlotta Gamba). Vermiglio não está aquém da Segunda Guerra Mundial, que, mesmo nunca aparecendo explicitamente, está acontecendo e causa dores, principalmente nas famílias que tiveram seus filhos convocados à luta. Por mais que realizem seus afazeres normalmente, os adultos mantêm um ar de preocupação.
Isso fica mais evidente, inclusive, aflorando debates entre os moradores, quando dois soldados desertores chegam ao vilarejo, Attilio (Santiago Fondevila), que já era dali, e Pietro, forasteiro trazido por ele. Surgem rusgas entre aqueles que consideram a presença deles uma desonra e os que entendem que devem protegê-los. Por fim, todos chegam a um consenso, liderados pelo professor Graziadei, de que é preciso acolher os filhos traumatizados da batalha.
Além das atuações comedidas, com uma suposta apatia que esconde o medo da guerra, a fotografia é um dos elementos mais angustiantes. Os quadros apresentam a imensidão opressora das montanhas congeladas e a pequenez dos personagens, tudo em tom azul acinzentado, remetendo à frieza e, novamente, reforçando o isolamento e a sensação de que algo não está bem. Não há ânimo.
A grande família Graziadei divide o protagonismo em tela. O que, a princípio, apontava o Cesare como o ponto principal, volta-se às mulheres da casa. A mãe (Roberta Rovelli), grávida pela décima vez e lutando na criação dos filhos, a pequena e curiosa Flavia (Anna Thaler), um destaque nos estudos dados pelo próprio pai, Ada (Rachele Potrich), que, atormentada por seus desejos sexuais, busca consolo em seu fanatismo religioso, e Lucia, a filha mais velha que começa um flerte com Pietro.
Quando a paixão dos dois é revelada e eles se casam, a paisagem também muda. O verão chega e as montanhas ficam verdes e acolhedoras, os comportamentos mudam e o amor parece tirar um peso dos ombros de todos no vilarejo. Mas, a felicidade ali é fadada ao fracasso, seja pela onipresença da guerra e da pobreza, ou pela violência patriarcal e machista que mostra cada vez mais suas garras.
Vermiglio – A Noiva da Montanha tem sua força nos momentos dramáticos que focam na resiliência das mulheres da família diante de tudo o que lhes acontece após o casamento e a ruína de suas breves alegrias. Por outro lado, Delpero tenta abraçar muitas coisas ao mesmo tempo, pequenas subtramas que nunca se concretizam porque são cortadas por saltos temporais que agilizam a história justamente quando ansiamos por mais detalhes. Fica um gosto amargo de que o filme poderia ser mais confiante em si mesmo, mais decidido; mas também fica a bela mensagem da força feminina presente no âmago familiar de muitas mulheres que hoje analisam suas origens e veem a semente da resistência que germina nelas, assim como fez Maura Delpero.
