Iracema – Uma Transa Amazônica | 1975

Iracema – Uma Transa Amazônica | 1975

50 anos de uma obra-prima do cinema brasileiro

Em meados dos anos 70 não se falava, ou, pelo menos, não se mostrava, o desmatamento dos biomas brasileiros. Hoje, passadas cinco décadas, são cada dia mais gritantes os efeitos provocados pela destruição do meio ambiente. Fenômenos naturais recorrentes refletem a urgência de encontrarmos um equilíbrio entre o progresso e a preservação. Este é um dos motivos que torna Iracema – Uma Transa Amazônica uma obra especial e revolucionária, quando, em 1975, consegue mirar os olhos do mundo para a Amazônia e para os problemas ecológicos da modernidade.

Os diretores, Jorge Bodanzky e Orlando Senna, mesmo silenciados pela censura militar à época, conseguem sucesso com a exibição de Iracema na TV alemã que havia financiado o projeto, e depois com a projeção no Festival de Cannes em 1976. No Brasil o filme estreou tardiamente no Festival de Brasília em 1980, onde recebeu os prêmios de melhor filme, melhor montagem (por Eva Grüdman e Jorge Bodanzky), melhor atriz para Edna de Cássia (que interpreta Iracema) e melhor atriz coadjuvante para Conceição Senna (que interpreta uma das prostitutas que acompanham a personagem principal). Os militares usavam o pretexto de que a produção era feita pela Alemanha para não aceitarem a obra em território brasileiro, mas, certamente, esta recusa se deu pela afronta ao discurso governamental de que o crescimento econômico do país dependia do desmatamento da Amazônia e da construção da rodovia que cortava a mata facilitando o transporte da madeira, a Transamazônica.

Não é apenas esse contexto político que trouxe relevância ao filme, mas também a forma como Bodanzky e Senna contaram sua história. Em oposição a um cinema que naquele momento utilizava-se da alegoria como principal ferramenta narrativa, seja para burlar a censura ou fazer do fantástico um meio potencializador do real, Iracema é um docudrama, uma mistura entre documentação e dramatização (leia sobre o filme O Rancho da Goiabada [2024], que segue o mesmo estilo). Tem-se a personagem-título e o caminhoneiro Tião “Brasil Grande” (Paulo César Pereio) como elementos ficcionais que atravessam a cultura e o trabalho do povo amazônico. Enquanto Tião irrompe como provocador e disseminador do nacionalismo típico da ditadura militar, Iracema é a vítima errante desse sistema. Juntos eles partem pela estrada (Iracema é também um roadmovie) e se deparam com os dilemas da região em processo de transformação, este que leva Iracema a sua própria ruína.

Mesmo que Edna de Cássia atue no filme, ela é parte daquela realidade. Em seu documentário Era Uma Vez Iracema (2005), Jorge Bodanzky fala da necessidade de se ter alguém daquele contexto no papel principal, foi quando a encontrou em Belém e lhe fez o convite para o trabalho.  É possível notar um certo desconforto da jovem em frente à câmera no começo, mas que com naturalidade vai se desfazendo, assim como a ingenuidade da personagem na trama. Iracema começa com a infantilidade condizente a seus 15 anos de idade, mas aos poucos vai sendo absorvida pelo sistema que a cerca.

No início da projeção, em um barco com a família que procura vender a colheita de açaí, Iracema tem seu primeiro impacto: o árduo trabalho não vale quase nada e todos eles parecem relegados à pobreza. Abre-se, então, o caminho da prostituição como possibilidade de sucesso. A violência à qual ela é submetida por vender seu corpo só aumenta depois que conhece Tião em um bar e decide acompanhá-lo em uma viagem, enquanto ele transporta madeira. Seu martírio ficcional encontra no caminho o de outras mulheres, estas reais, assim como os trabalhadores indagados por Tião, apresentando um misto de esperança e desilusão, a dualidade entre a suposta modernidade e seu preço.

A figura do caminhoneiro é a representação da massa de manobra articulada pelo discurso capitalista e militarista. Ele confia piamente no dito “Brasil do futuro”, o que nascerá da exploração desenfreada da qual faz parte, e por isso mesmo é apelidado de “Brasil Grande”. O que lhe interessa é o dinheiro e seu caminhão; trata as mulheres, e principalmente Iracema, como objetos de prazer, assim como as árvores cortadas seriam seu sucesso financeiro. Pereio, que hoje é reconhecido como uma lenda da atuação brasileira, incorpora a persona de Tião e a conduz por meio da improvisação a ser esse elemento caótico. A inexperiente Edna, que sequer havia sido preparada para seu papel, parece se sintonizar com a potência de Pereio e com a de sua própria personagem, fazendo com que sua revolta pessoal salte para Iracema e resulte em cenas memoráveis entre os dois, como quando Tião a abandona em um prostíbulo qualquer em meio a seus xingamentos espontâneos.

Com todos os percalços que se seguem, Iracema é apresentada ao mundo real e cruel, ao Brasil dos militares, do “progresso”, do “ame-o ou deixe-o”. A jornada traçada pelos diretores à jovem indígena nortista é pessimista e desoladora, reflexo do que realmente era, e que ainda é sob muitos aspectos, mas também é um alerta aos espectadores, seja naquela época, ou agora, onde os “Tiões” ainda insistem em aparecer e atacar.

No aniversário de 50 anos, Iracema – Uma Transa Amazônica retorna aos cinemas em belíssima versão remasterizada em 4k. Uma obra que merece ser enaltecida e consolidada no panteão do cinema brasileiro. Mesmo que o cenário ambiental no Brasil tenha ganhado novos contornos mais otimistas (o desmatamento teve queda de 32,4% em 2024), há pouco vivíamos o governo do “passar a boiada” que nos mostrava rumos desastrosos à Amazônia. Estamos, obviamente, longe do que se espera, ainda mais com o congresso nacional aprovando um dos maiores retrocessos ambientais das últimas décadas, a PL da Devastação, e é por isso que Iracema deve se manter uma obra viva para qualquer sociedade que almeje a revolução e a equidade.

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