Filhos do Mangue | 2024
O mangue é um dos biomas mais complexos que temos no Brasil, sobretudo porque os seres vivos que nele habitam precisaram amoldar-se à condições muito específicas. Nele não consegue sobreviver quem não se adapta.
Em Filhos do Mangue, dirigido por Eliane Caffé e que estreia nos cinemas brasileiros em 18/07/2025, temos que, na busca por “pegar emprestada” esta complexidade do bioma, o filme acaba por perder-se, ora trazendo inúmeros assuntos de extrema relevância na contemporaneidade, ora assumindo um cariz mais documental. Assim, pode-se dizer que o longa-metragem perde-se ao tentar “abraçar” muitos temas, sem se dedicar a desenvolver, de forma satisfatória, nenhum deles.
É interessante notar que Filhos do Mangue inicia envolto em tensão e mistério, dando pistas de que, dali em diante, assistir-se-ia a um thriller, dada a amnésia de Pedro, personagem interpretado por Felipe Camargo, cuja atuação merece destaque. Contudo, o que se assiste a partir dessa premissa interessante e instigante é uma miscelânea que tudo desvirtua, fortalecida pela falta de atenção dada a personagens “secundários”.
O desenvolvimento dessa trama não ocorre e logo dá espaço para um tom documental, em que se exploram questões afetas ao feminismo, à violência e à igualdade de gênero. E, na mesma rapidez com que se atrela a essa verve de documentário, retorna àquela história envolvendo o sumiço de dinheiro, o esquecimento e o julgamento por parte da comunidade que, unida, decide (ou busca decidir) quais rumos aquele pequeno grupo de pessoas irá tomar para resolver os problemas que as afligem.
Os temas que o filme deseja discutir não são tratados somente quando assume essa abordagem mais “documental”, mas intenciona discuti-los (ainda que de forma açodada e sem profundidade) também quando se desenrola a narrativa envolvendo o personagem de Felipe Camargo, o que deixa o resultado final ainda mais confuso e sem força.
É válido ressaltar que, em meio a essa “salada” de (relevantes) temas “jogados ao léu” e mal desenvolvidos, há, sim, alguns que me chamam a atenção e fazem com que Filhos do Mangue consiga atrair mais interesse do público.
Dentre eles, chama-me a atenção (talvez pelo fato de eu ser advogado criminalista) a ideia de um julgamento coletivo, uma punição discutida no meio da comunidade, à margem de toda e qualquer formalidade/institucionalidade, o que remete ao conceito de “Direito Penal Subterrâneo”, cunhado pelo jurista argentino Eugenio Raúl Zaffaroni. O filme ganha muito quando coloca seus personagens secundários, membros da associação de moradores, a discutirem abertamente, numa espécie de “ágora”, na qual expõem suas ideias — inclusive aquelas relativas à punição e execução da pena.
Também é extremamente interessante a forma como é construída a resposta social dada para o caso, que seria uma espécie de banimento, que obriga Pedro ao silêncio e ao afastamento, vagando e navegando pelos rios da região. É extremamente interessante a dualidade que Caffé traz às telas, uma vez que, ao mesmo tempo que o banimento restringe e limita, a amnésia do personagem lhe confere liberdade: uma liberdade por não saber o que ocorreu, fazendo com que não sinta culpa ou arrependimento, bem como não se vincule à sua família, por não saber quem dela faz parte; mas também, para além dessa liberdade “psicológica”, uma liberdade física, de vagar de forma solipsista pelas águas.
Aqui, devo afirmar que, mesmo de forma oblíqua (e, quem sabe, até desarrazoada), Filhos do Mangue me remeteu ao maravilhoso conto de Guimarães Rosa chamado “A terceira margem do rio”, e isso fez-me desfrutar mais da experiência de assistir ao longa.
Assim, apesar da grande bagunça e da tentativa, inexitosa, de abordar os diversos temas de grande relevância (e que mereciam ser melhor desenvolvidos), saindo do “drama convencional ficcional” e passando para algo mais duro, cru e documental, Filhos do Mangue possui bons momentos, cuja inventividade chama a atenção, impedindo que o longa-metragem naufrague totalmente.
