No Céu da Pátria Nesse Instante | 2023
Um retrato da política brasileira atual
O período eleitoral no Brasil é um evento apoteótico, não só por ser o símbolo da democracia conquistada com muita luta, mas também como parte da cultura do povo. O país se torna um caos entre comícios, bandeiras, panfletos, adesivos e jingles. No dia da eleição as famílias se reúnem, pensam os melhores horários para votar e no fim aguardam os resultados, geralmente em uma confraternização. Quem viveu esse momento em 2022, ano de uma das disputas mais acirradas à presidência, deve se lembrar, além de tudo isso, da tensão que pairava no ar desde o início das campanhas. De um lado, Lula ressurgia para reconquistar o governo, de outro, o então presidente de extrema direita Jair Bolsonaro buscava a continuidade de seu projeto conservador. No Céu da Pátria Nesse Instante, novo filme de Sandra Kogut, habita esses dois polos, transitando entre o medo, a esperança e o alívio.
A complexa conjuntura política nacional acaba levando o filme a novos contornos que talvez nem a cineasta imaginasse. Agora, em sua estreia, o Brasil enfrenta outros dilemas recorrentes daquela eleição e do 8 de janeiro de 2023, com a tentativa de golpe e a invasão do Congresso Nacional. Este último fato a diretora teve tempo de colocar na montagem final, funcionando como clímax de tudo que acompanha com seus personagens. Fica evidente que o interesse de Kogut não é pelo evento macro, que hoje conhecemos a magnitude, mas pelas micro interações dentro desse intrincado sistema. Ela escolhe acompanhar pessoas comuns que se doam às suas causas, pequenas peças, que, somadas às outras, resultam nas consequências atuais. Portanto, não há grandes elucubrações sobre as dinâmicas políticas do país porque No Céu da Pátria Nesse Instante é muito mais uma análise antropológica dos perfis de cada lado dessa oposição.
Do lado bolsonarista, temos a família de Ferreirinha, um caminhoneiro que logo de início afirma que “se Lula ganhar a eleição vai vender seus caminhões e ir embora do Brasil”. Ele, sua esposa, filha, cunhados e sobrinho conversam sobre a “ameaça comunista” representada pela esquerda e a necessidade de lutarem contra ela, pregando valores já conhecidos da campanha de Bolsonaro: “Deus, Pátria e Família”. O diálogo mais interessante entre alguns deles acontece logo no início, quando a esposa revela as origens de sua família ligadas ao MTST, a vergonha e a raiva que nutre por conta disso. Há uma inconsciência de classe absurda, não só dela, mas de todos à mesa que concordam e comentam sobre os “invasores de terras”.
Esse núcleo de filmagem é muito irônico. Kogut insere elementos que, somados à cena anterior, geram um leve riso provocado por esse arquétipo do bolsonarista que conhecemos até mesmo entre nossos familiares. As informações que Ferreirinha consome vem pelo celular, pelos reels patrióticos que acompanha; sua obstinação vem dos cultos que frequenta com a família, todos vestidos de verde e amarelo ouvindo o pastor comentar sobre Cuba, Venezuela e o futuro do Brasil. Os breves momentos de interação entre a diretora e seu personagem são para cobrar dele argumentos de suas ideias, mas o mesmo se esquiva e resolve terminar as gravações. Parece uma caricatura.
Do petismo acompanhamos três mulheres em intensa campanha para Lula. Elas fazem panfletagem, fiscalizam as eleições, torcem pela vitória, mas nunca abandonam o sentimento de angústia da possível reeleição de Bolsonaro. A atmosfera é de companheirismo e também de vigilância. Nas ruas elas estão sempre atentas aos bolsonaristas que possam ser uma ameaça, citados algumas vezes como sujeitos armados. Nas reuniões partidárias comentam sobre seus medos, mas logo confraternizam e compartilham confiança. Kogut claramente estabelece uma oposição de elementos entre as partes, pendendo sempre para a esquerda. Aqui a ironia é substituída pela tensão de um constante estado de atenção.
Um terceiro movimento no filme é neutro, mostra funcionários do Tribunal Regional Eleitoral e voluntários trabalhando nas eleições em cidades amazônicas de difícil acesso. As urnas eletrônicas viajam de barco, mesários recebem treinamento sobre como agir em situações de risco, já que o ataque dos bolsonaristas ao processo eleitoral era constante, e estabelecimentos se preparam para receber os eleitores. Tal neutralidade termina quando esse núcleo também contribui para a construção do antagonismo da extrema direita que não reconhece o trabalho digno, correto e árduo dessas pessoas que fazem as eleições acontecerem.
No Céu da Pátria Nesse Instante é propositalmente desequilibrado, seguindo a predileção da cineasta. A caricatura do bolsonarismo não é criada por ela, mas sim registrada e reforçada com a ironia de quem saiu vencedor no final. O problema do documentário, que não é propriamente dele, mas do contexto em que ele existe, é justamente essa festividade provocativa que na verdade não pode nos deixar baixar a guarda contra o conservadorismo, porque ele não está em queda.
