O Pior Homem de Londres | 2024
A lentidão que gera desinteresse e fulmina a boa premissa
O português do Porto chamado Charles Augustus Howell (interpretado por Albano Jerónimo), o tal “o pior homem de Londres”, personagem histórico (real, portanto) e que teria sido, inclusive, inspiração para Arthur Conan Doyle (que surge na trama em breve e divertida referência) escrever um vilão presente nos contos de Sherlock Holmes, é o protagonista deste longa-metragem dirigido por Rodrigo Areias, cuja premissa é instigante, mas a execução peca em diversos pontos.
O filme se debruça sobre a vida do protagonista, homem de grande influência na elite britânica. Ele negocia obras de arte, transita entre nobres e conspira o tempo inteiro. Ainda que Albano Jerónimo o interprete de forma segura, o personagem sofre com certa unimendisionalidade: não faz nada além de tramóias, sempre encontrando uma brecha para se dar bem (mesmo quando aparentemente está sendo bondoso) e, para isso, vitimando pessoas das mais diversas estirpes.
Assim, O Pior Homem de Londres acaba por ser, em verdade, uma sucessão de golpes de Charles Howell, todos em situações enfadonhas, que não atraem a atenção do espectador.
Além de as situações em si não serem interessantes, o filme é afetado pelo ritmo excessivamente lento e pelo grande número de personagens que, por vezes, entram e saem da narrativa sem que suas presenças tragam algo de significativo.
Longos minutos se passam sem que surjam conflitos ou acontecimentos realmente instigantes, e o espectador, por sua vez, não consegue se conectar com personagens tão parcamente desenvolvidos (com exceção, logicamente, do protagonista), “contaminando-se” com a narrativa pra lá de modorrenta.
Nesta pretensa atmosfera de mistérios e chantagens, inúmeros temas que poderiam ser melhor explorados surgem abruptamente e são esquecidos muito rápido, dentre eles os problemas enfrentados por Howell por ser português na Inglaterra, aspecto que poderia ter sido trabalhado de forma mais consistente do que nas cenas curtas e pouco densas em que aparece.
Aproveito para mencionar que, sendo um filme português, dirigido por um português, protagonizado por um ator português e filmado majoritariamente em Portugal, o fato de ter tão poucas falas no idioma de Camões causou-me estranheza.
Reitero: por mais que o espectador consiga perceber a intenção do roteiro na caracterização do personagem principal, o desenvolvimento de O Pior Homem de Londres é uma verdadeira colcha de retalhos. Não há coesão satisfatória no roteiro, que, como mencionado, apresenta vários personagens e elementos novos, fazendo com que o longa-metragem não saiba para qual caminho seguir, culminando em desfechos insatisfatórios e decepcionantes.
No que tange às questões técnicas, é necessário reconhecer o belo trabalho de figurino (de Susana Abreu) e de fotografia (de Jorge Quintela), além da competente atuação de Jerónimo.
Assim, por mais que a premissa de O Pior Homem de Londres possa animar o espectador e atraí-lo para a sala de cinema, sobretudo pela atmosfera de thriller e conspirações a que se propõe e pelo fato de se tratar de um personagem que realmente existiu, logo fica evidente que os bons prenúncios carecem de adequada execução, cujas principais máculas são o ritmo lento, a falta de coesão entre os elementos e, principalmente, o quão enfadonhas são a maioria das situações em que o protagonista se envolve.
