Ladrões | 2025
O cinema já deu tantas faces à Nova Iorque que, estadunidenses ou não, sentimos a cidade como um personagem mutante, que se transforma, dá cores e tons a narrativas e atmosferas, que transcende o tempo e não passa incólume, mas observadora, resiliente e superior. Palco de romances, ela pode ser alaranjada, acolhedora e até arborizada. Cenário de pobreza, pode ser vista de baixo, das ruas, a tensão associada ao calor. Representando a riqueza, submete seu olhar de cima, dos arranha-céus. Atrelada ao dinheiro e aos negócios, a cidade é basicamente vivida em ambientes internos. Em cada um desses retratos, lá está ela, onipresente, amparando ou oprimindo.
Em Ladrões, a Nova Iorque noventista de Darren Aronofsky parece estar sob o efeito de psicoestimulantes e alcoolizada: é eufórica, caótica, acelerada, alerta, suja, desorganizada, em fuga da realidade. E aqui, seu protagonista com ela se confunde. Hank Thompson (Austin Butler) é um ex-jogador de beisebol em evasão da realidade e de si, que por uma coincidência (felina), se vê enlaçado em um submundo criminoso de acontecimentos que se transformam em sua jornada pessoal de sobrevivência e enfrentamento daquilo que ele mais teme: ele mesmo.
Aronofsky contextualiza a cidade que nunca dorme em sua cena inicial, identificada em 1998, às 4 da manhã, num bar regado a metaleiros e bêbados. O fim dos anos 90 foi caracterizado pelo processo de gentrificação e pela política de tolerância zero do prefeito Rudolph Giuliani. Repressiva e violenta contra crimes de menor potencial ofensivo em prol de uma imagem (falsa) de segurança, que atingia, principal e estrategicamente, as comunidades negras e latinas, Giuliani provocou o encarceramento em massa dessa população. A Nova Iorque de 1998 de Ladrões é um antro de atrações para a opressão policial.
A vida quase inteiramente noturna de Ladrões revela a diversidade cultural da época, e a pluralidade étnica de seus personagens reforça seu status de capital do mundo. O submundo é representado por negros, porto-riquenhos, ucranianos, russos, judeus, ingleses e estadunidenses, e cada um deles, mocinho ou vilão, carrega um fardo como herança de seus lugares na cidade que, aqui, não abraça ninguém.
Destoante de outros filmes da carreira de Darren Aronofsky, as perturbações expostas no filme não são de ordem psicológica, nem remetem a quaisquer elementos surrealistas. As inquietações imagéticas de seu novo longa são cruas, violentas, físicas e ativas, compromissadas ao gênero de ação com pitadas cômicas. O jogo é descompromissado e de sobrevivência – do protagonista e do gato, Bud. Hank foge de si por se sentir responsável pelas mortes de pessoas em seu entorno, e Bud, o gato que morde, se transformará, de certo modo, em sua motivação para enfrentar o sistema criminoso e sua própria realidade. É impossível não deliciar-se com a presença do felino. Enquanto o caos domina tudo e todos ao seu redor, Bud segue alimentado e protegido. Assistindo a tudo, seja da plenitude da cama de seu novo tutor, seja de dentro da mala onde é levado de um lado para outro, o felino julga quem é bom e quem é mal naquele contexto: “Essas pessoas machucam gatos” é o que define a confiabilidade de alguém.
São muitos os vícios e elementos que mediam a condição de estímulo e fuga dos personagens: o beisebol, o álcool, a vida noturna, o dinheiro, as drogas, a violência. Hank parece nunca estar totalmente desperto, e Aronofsky impõe estados de transe ao personagem que o fazem acordar sempre que ele está próximo de atingir uma autodescoberta ligada a um passado que o persegue. Os flashbacks vem na forma de pesadelo, e até certo ponto narrativo, o protagonista não possui o menor interesse em acessá-lo.
Na cidade-personagem adoecida, decadente e entorpecida pelo caos, basta conformar-se que a consciência limpa não é um estado acessível e possível, e que a violência é inerente ao contexto político. Nada como um cenário desolador para a construção de uma narrativa estimulante até os ossos, descompromissada, onde o que importa não é mais a segurança de seu protagonista ou seus entes queridos, mas, principalmente, a do gato Bud – e não há meios de não sorrir quando, ao final, a TV que representa o vício em beisebol é desligada, para revelar aquele que importa.
