3 Obás de Xangô | 2024
O que é que a Bahia tem?
Nunca estive na Bahia, mas seus mistérios e encantos habitam em mim há muito tempo, não apenas pelo peso histórico que esse lugar tem para a construção do Brasil e do povo brasileiro, mas também por toda a arte que de lá emana para todos os cantos, e que me atingiu no sul do país. Caetano, Gil, Bethânia, Gal, Novos Baianos, João Gilberto, Os Tincoãs, Castro Alves, Glauber Rocha, são alguns nomes. Todos eles espalharam a baianidade advinda da resistência afro-brasileira e rechearam o imaginário sobre o estado nordestino. Sérgio Machado, o diretor de 3 Obás de Xangô, escolhe outras três figuras lendárias para representar o que é ser baiano: o escritor Jorge Amado, o compositor e cantor Dorival Caymmi e o pintor Carybé. Seu documentário é uma ode à amizade entre eles e uma viagem às origens espirituais da Bahia.
Eles se ligam pelo candomblé. Intitulados como Obás de Xangô, pessoas recrutadas para disseminar essa cultura e religiosidade, assim o fizeram, seja pelos personagens periféricos nos livros de Amado, pelas poesias nas canções de Caymmi ou pelos contornos e cores nas obras de Carybé, o mais baiano dos argentinos. Machado não trata essa ligação entre os artistas como mera formalidade ou uma demanda publicitária, mas sim como uma força oriunda da mais profunda sinceridade, que o espectador pode constatar pelos depoimentos dos três. Ser um Obá é um chamamento divino que os uniu de maneira indissociável, assim como a Bahia e a África.
3 Obás de Xangô parte das correspondências entre os amigos e chega às belíssimas imagens de arquivo com entrevistas e momentos descontraídos. Jorge Amado e Carybé contracenam e são mais próximos, enquanto Dorival se conecta mais pelas cartas. Todos falam com imenso carinho um do outro, reconhecendo mutuamente a importância de suas funções no candomblé. A simpatia desses momentos e a veracidade com que falam criam um laço inevitável com o espectador. Os três se amam, amam a Bahia, assim como Sérgio Machado nutre admiração por eles e por sua terra, um evidente mérito do filme.
Outro ponto interessante do documentário é o fato de que os personagens se tornam realmente os emissores de sua cultura, mesmo todos estando fisicamente mortos. Vários temas são puxados pelos depoimentos dos Obás, trazendo também relatos atuais de outras pessoas envolvidas com a religião, para destacar a força feminina nos terreiros, a relevância para a cultura baiana e a resistência política que os negros sempre tiveram para existir no território hostil do Brasil colônia e contra o racismo e intolerância religiosa que persistem até hoje. É como se Dorival Caymmi, Jorge Amado e Carybé renascessem em prol desse vínculo construído em vida, mas que continua em espírito, pela eternidade da Arte e da potência que representam em nosso país.
3 Obás de Xangô venceu nos festivais de São Paulo e do Rio, além do Prêmio Grande Otelo do Cinema Brasileiro, e chega dia 04 de setembro aos cinemas nacionais.
