Suçuarana | 2024
“Não tá fácil pra ninguém”
Estar “na estrada” pode ser um caminho ou um descaminho. O primeiro é quando alguém se lança voluntariamente em um trajeto de liberdade, com um rumo certo ou tendo como objetivo o prazer de ser livre, negando-se fixar território. O segundo é o percurso dos párias, aqueles que têm seu lugar negado, que não são autorizados ao sentimento de pertencimento e por isso vagam sem destino. Em Suçuarana, filme dirigido pela dupla Clarissa Campolina e Sérgio Borges, a personagem errante é Dora (Sinara Teles), não apenas por desejo seu, mas por imposição da fome, levando consigo um traço de esperança na busca pela terra mística de sua origem materna, o Vale de Suçuarana, onde, talvez, haja espaço para si.
Seguindo a lógica do roadmovie, os diretores constroem uma jornada de ancestralidade que não diz respeito apenas a Dora, mas a todo um povo marcado pelas sequelas da escravidão, relegado às margens da sociedade. Há muitos como ela, e que, quando cruzam seu caminho, dizem: “não tá fácil pra ninguém”. Esse “ninguém” tem muitos nomes Brasil adentro, mas tem predominantemente o tom de pele negra, como Dora.
É ainda mais sugestivo que Suçuarana se passe em Minas Gerais, justamente nas paisagens desgastadas pela exploração de minérios, filmados em amplitude para criar oposição à pequenez da mulher que caminha cansada com uma mochila nas costas. Os ambientes, externos e internos, não são acolhedores. O som extradiegético exagerado, como ruídos de máquinas e motores, torna tudo ainda mais assustador, como se não houvesse outra opção para a personagem a não ser sair em fuga.
Dora carrega uma fotografia de sua mãe, que é muito parecida com ela, trabalhando em uma fazenda. É essa imagem que a faz reivindicar aquele lugar como herança, já que é onde a genitora havia passado a vida toda e a criado. Mas todos aqueles a quem pergunta sobre o caminho para chegar lá, dizem que ele não existe. O Vale de Suçuarana é muito mais espiritual do que físico, é a ancestralidade que Campolina e Borges imprimem em seu filme como força de resistência buscada pela protagonista.
No meio do percurso, cruzam as dores de outros que também vagaram pelo descaminho em algum momento da vida e adquiriram uma casca grossa de hostilidade, como a dona do bar que a enxota ao mesmo tempo que acalenta; ou a sororidade de uma comunidade que a acolhe e lhe possibilita trabalhar. Essas cenas elevam o filme a um ponto cada vez mais místico, com base na fotografia de Ivo Lopes Araújo, que dá contornos oníricos ao ato final, com a presença do cão-guia Encrenca e a atuação silenciosa e potente de Carlos Francisco, como o compassivo Ernesto.
Suçuarana é uma obra que transcende a realidade de sua personagem aos poucos, abrindo-se ao fantasioso como chave para não se tornar um roadmovie comum. Muito pelo contrário, o cinema brasileiro se prova mais uma vez um reduto de bons filmes de estrada, com caminhos e descaminhos.
