Sonhar com Leões | 2024
Quando o cinema une humor e temas sensíveis
Definitivamente, não é tarefa fácil tratar, com tanto humor e ousadia, de um tema espinhoso quanto a eutanásia e, nesse desafio, Paolo Marinou-Blanco, diretor e roteirista de Sonhar com Leões, saiu-se extremamente bem-sucedido.
Gilda (Denise Fraga) é uma mulher que, acometida por um câncer terminal, decide antecipar o fim da vida, uma vez que deseja morrer “enquanto ainda for ela”, ou seja, sem passar por situações em que a debilidade do seu corpo faça sucumbir sua personalidade e vivacidade.
Por isso, procura a empresa Joy Transition International, que anuncia amenizar os últimos dias de doentes terminais. Lá, encontra uma série de pessoas em situação semelhante à sua, como Amadeu (João Nunes Monteiro), um jovem acometido por uma doença grave no cérebro e que trabalha em uma agência funerária, maquiando os corpos que serão levados ao velório.
Juntos, vão sofrer as agruras de quem busca por um final de vida “indolor”. Contudo, ao percorrerem este caminho, o roteiro de Marinou-Blanco é extremamente hábil em, de forma ousada e corajosa, abordar uma série de tabus (a eutanásia sendo o principal) de forma bem-humorada e cáustica, fazendo com que, em alguns momentos, o espectador possa até mesmo sentir-se culpado por rir (ou querer rir).
Este vigoroso humor em Sonhar com Leões é catapultado pela recorrente quebra da quarta parede, ocasiões em que Gilda expõe, com muita honestidade, todos os impasses na busca por uma “boa morte”. E aqui é necessário render todas as homenagens à belíssima atuação de Denise Fraga, que sustenta boa parte do filme a partir de sua verve cômica, mas que transiciona, mantendo o brilhantismo da atuação, também para as partes mais “pesadas”. O trabalho de Denise Fraga é substancial parte daquilo que funciona muito bem no filme, parecendo não existirem no mundo tantas outras melhores opções do que a sua escolha para o papel de Gilda.
Outro aspecto também utilizado por Marinou-Blanco, e que serve muitíssimo bem ao ritmo do longa-metragem, é o fato de fazer com que os mortos do filme, principalmente os que estão sendo maquiados por Amadeu, interajam com ele, falando sobre o “morrer”, o que é bonito e, principalmente já no final do filme, especialmente emocionante, com Gilda dirigindo-se ao público após “alcançar seu desiderato”.
O roteiro traz, dentre os diversos temas correlatos à eutanásia, como se em pílulas, através de cenas diretas, objetivas e de ritmo correto, os seguintes pontos: a necessidade daqueles pretensos suicidas em “se desculpar” com seus familiares e pessoas ao redor por quererem morrer, bem como a irritação em ouvir as mesmas “ladainhas”: para desistir de se matar, lutar, rezar; a dificuldade “operacional” em se realizar o suicídio, motivo pelo qual tantas tentativas de Gilda foram inexitosas; o sofrimento das pessoas que convivem com quem tem esses pensamentos suicidas e que “deveriam” demovê-las da ideia, não conseguindo.
Aqui, mais uma vez, ressalto a coragem da direção em (ao menos tentar) chacoalhar o status quo, trazendo a lume toda a hipocrisia e o falso moralismo tão presentes em nossa sociedade, bem como chamando atenção à pretensa autorização que certas pessoas acreditam possuir para intervir e/ou dar sua opinião acerca de aspectos tão importantes das vidas das outras.
Na empresa contratada por Amadeu e Gilda, os clientes são obrigados a usar máscaras que emulam um sorriso grande, aberto e escrachado. Os risos fake e a realização de brincadeiras que “visam” suavizar a reta final daqueles enfermos contrastam com a dor e o peso da enfermidade, bem como expõem o falso moralismo impregnado naquela atmosfera marcada, sobretudo, pela artificialidade no comportamento de todos.
Parece haver uma clara influência da filosofia de Byung-Chul Han no roteiro, sobretudo a partir da ideia do excesso de “positividades” como marca da sociedade contemporânea.
A obrigação de rir, se divertir, interagir e fingir que está tudo muito bem, mesmo na situação em que estão, é de uma violência atroz, e a forma com que é exposta na tela, no longa-metragem, conecta-se de forma extremamente interessante com a “psicopolítica” presente no contexto neoliberal, em que o sujeito “perece com o imperativo da otimização de si”, morrendo na obrigação de desempenhar cada vez mais, sorrir cada vez mais. O filme expõe essa atrocidade, tão presente na contemporaneidade, de forma interessantíssima.
Nesta tarefa, Sonhar com Leões confronta o espectador, mostrando-lhe “aquilo que ele não quer ver”. Marinou-Blanco, em uma cena brilhante, traz Gilda em sofrimento, chamando o espectador a ver aquele momento tão aflitivo quanto doloroso, tão duro quanto necessário para a compreensão dos motivos da personagem ao buscar pela eutanásia.
Ainda que Sonhar com Leões perca parte do seu ritmo e verdor ao se encaminhar para sua parte final, não é diminuído o brilhantismo da forma como constrói as pontes para uma relação empática entre Gilda e o espectador, dissolvendo hipocrisias e amenizando tabus, no que a mencionada quebra da quarta parede ajuda muito neste excelente filme que, na verdade, nos fala sobre a vida.
