Aqui Não Entra Luz | 2025

Aqui Não Entra Luz | 2025

Um documentário que faz ecoar a realidade das empregadas domésticas no Brasil, para muito além do quartinho dos fundos

Uma pessoa, nem sempre estranha, entra na casa de uma família e ocupa um quartinho nos fundos da residência. Quase como um membro fantasma dessa família, comumente tratada com olhares de superioridade, ela passa a semana cuidando das coisas que a família não dá conta: para além da faxina, se relaciona com as crianças da casa, com filhos que não são seus e os trata como se fosse. Aqui Não Entra Luz, longa-metragem de estréia da diretora Karol Maia, vasculha a intimidade das empregadas domésticas, tendo como ponto de partida sua própria mãe.

“Você não pode deixar uma louca te morder, se não você pode ficar louca também”, comenta uma das entrevistadas de Karol, que relata ter ficado com a função de cuidar de uma mulher mentalmente instável, dentro da casa a qual trabalhava. Diante de tantos relatos sinceros e abertos, a loucura real parece estar em abraçar a cultura escravocrata que rege a contratação das empregadas domésticas, tão presente ainda nos costumes brasileiros. Nesse sentido, a diretora faz uma investigação genuína, colhendo depoimentos de mulheres humildes, todas com muitos anos de experiência no ofício, cansadas e muitas vezes consumidas pelos abusos que sofreram nesse processo. 

Esteticamente a diretora não se limita à uma colagem de entrevistas, elas estão ali, porém entrelaçadas com ambientes estáticos as quais as personagens fazem parte, mas não pertencem de fato. É interessante a composição de imagens montadas a fim de evidenciar a discrepância em servir às famílias ricas, com casas super confortáveis, com mais de cinco quartos, onde é destinado às empregadas sempre o mesmo minúsculo e insalubre quartinho ao lado da área de serviço. Área essa, muito bem pontuada no longa, que em sua sintaxe quer dizer o oposto de um lugar de descanso. 

Aqui Não Entra Luz usa muitos planos estáticos, alguns onde a câmera está posicionada no canto dos quartos, apontando para a lavanderia ou para a cozinha da residência, deixando que o som ambiente ressoe, o som distante dos verdadeiros moradores dessas residências jantando na sala, enquanto no fundo da casa a empregada se recolhe. Faz lembrar Chantal Akerman, em Jeanne Dielman (1975) e seus afazeres infinitos emoldurados por um rigoroso quadro rígido ao som de suas próprias tarefas.

Karol se coloca como autora e também personagem em sua obra. Nos conta que o filme demorou muitos anos para ser finalizado, e que foi um trabalho intenso de busca por personagens que atingissem, de fato, a essência daquilo que ela queria extrair. Sua mãe, uma empregada doméstica, se recusava a participar do filme e a relação das duas era distante. Em meio à experiência de outras mulheres, a diretora tenta entender a história de sua própria mãe, que preferiu resguardar sua jornada. Na montagem são inseridas fotos pessoais de família, da infância de Karol e conversas íntimas entre mãe e filha, que ajudam a ampliar a percepção dessa relação que foi atravessada pelo ofício, assim como a de tantas famílias que têm suas mães “roubadas” pelo trabalho.

Não há sequer um homem em cena, visto que essa profissão é exclusivamente destinada à mulheres. Vemos, no entanto, muitas mães solteiras, comumente abdicando de criarem seus filhos, deixando suas terras-natal para tentar a vida em outra cidade. Os homens, então, são citados como um espectro perverso do patrão, do abusador ou como seres ausentes que pouco acrescentam ou aliviam o fardo que essas mulheres carregam consigo. 

Aqui Não Entra Luz é um documentário que parte de relatos bastante pessoais e se potencializa pelo trato respeitoso e questionador à uma profissão que foi por tantas décadas marginalizada.. No cinema brasileiro, tivemos Que Horas Ela Volta? (2015), de Anna Muylaert, onde a protagonista interpretada por Regina Casé, nos sensibiliza sobre esse ofício e a forma como é tratada dentro de uma casa de família. O filme de Karol emociona especialmente quem (assim como eu) viveu uma relação parecida com uma mãe-doméstica, mas sobretudo nos ajuda a ter senso crítico acerca dos critérios utilizados para escolher essas pessoas e como hoje a Lei que regulamenta os direitos das empregadas domésticas traz dignidade à tantas mulheres que trabalhavam na informalidade, em muitos casos vivendo experiências análogas à escravidão, sem remuneração e sem respeito algum.

Nota

Author

  • Jornalista carioca, editora e crítica de cinema. Tem foco de interesse e pesquisa em cinema de gênero e feito por mulheres.

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