Queimadura Chinesa | 2025

Queimadura Chinesa | 2025

É tênue a linha entre a saúde e a toxicidade do amor simbiótico. Quando a simbiose tem como consequência a perda da individualidade, ao ponto da dependência emocional e afetiva quase que química do outro, é certo que prevalece o lado nocivo da relação. Em Queimadura Chinesa, filme uruguaio vencedor da Mostra Território da 19º CineBH, a diretora Verónica Perrotta concede às suas próprias máculas passadas a licença poética para transformá-las em uma fusão física de corpos: a dependência como necessidade de sobrevivência através das figuras de Annie (Perrotta) e Dani (Néstor Guzzini), gêmeos siameses recém separados pela cirurgia.

Após a ruptura, Annie e Dani enfrentam os estranhamentos da independência e da liberdade, manifestados em crises existenciais e depressivas após o vínculo físico desde o útero materno. Há, entretanto, um terceiro irmão, Willie (César Troncoso), que, após anos afastado dos siameses, retorna para expressar seu desejo de tornar-se, ele mesmo, um siamês e costurar-se junto a um dos irmãos, motivado por traumas carregados da infância por compreender-se excluído do contexto familiar.

A metáfora do relacionamento tóxico por meio dessa relação obsessiva do trio Annie-Dani-Willie só torna-se possível de ser levada ao extremo da união física e biológica entre eles em razão do escape fantástico e metalinguístico atribuído pela diretora à Queimadura Chinesa. Os traços da vida pessoal da diretora passam a ser, na ficção, uma peça de teatro que inspira um filme. O resultado e bastidores é assistido por nós, com quatro gerações metalinguísticas a serem atravessadas pelo espectador: o filme dentro do filme, o fazer fílmico, e a inspiração em peça teatral. Nesse sentido, a artificialidade e a teatralidade impressas tanto de forma poética, como de modo literal, na encenação consciente, torna afetuoso, compreensivo e melancólico um relacionamento reproduzido de forma trágica e deveras doentia.

No filme dentro de Queimadura Chinesa, as atuações são deliberadamente exageradas, os espaços são antinaturais. O ginásio abandonado e a piscina vazia conferem um aspecto onírico à encenação, abrindo espaços para metáforas evidentes – o risco de desmoronamento físico do clube é notoriamente a representação da fragilidade daquelas relações, e a menor perda do tom ou passo em falso pode ser trágica. Naquele lugar, por entre frestas, topos de escadas e cantos, os personagens parecem sempre estar em busca um do outro. Nos bastidores da obra que assistimos, a diretora consegue aproveitar-se de seu elenco refinadíssimo, equilibrando a tragédia com um humor esperto, sutil. Ali, no extracampo, certa simbiose também acontece, presente nos tensionamentos e envolvimento dos atores com a arte.

Queimadura Chinesa ganha, por sua melancolia desajustada e bizarra, o permissivo para os excessos. Há excesso de símbolos, detalhes, há exagero representativo. Há muita dor e o tom é traumático, teatral e exorbitante, com pitadas de improviso conferidas pela trilha sonora jazzística.  Mas isso tudo é poesia nas mãos da diretora, que permite-se a entrega à metáfora e à metalinguagem para corajosamente falar de si e expor as marcas de seus próprios relacionamentos. A expressão “queimadura chinesa” manifesta o lugar do corpo onde os gêmeos siameses se conectam. Vê-se que a liberdade possui um preço doloroso, cirúrgico, e a dependência é quase que insuperável. Nesse contexto, em que pese a necessidade de permanecerem unidos para além do filme, a atitude de virar as costas e ir embora é significativa.

Nota

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  • Advogada, cofundadora, editora e crítica de cinema no Coletivo Crítico. Formada pelo Talents Rio da Berlinale e Goethe Institut. Membra do júri da Latin American Critics Awards for European Films.

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