Movimento Perpétuo | 2025

Movimento Perpétuo | 2025

O agreste alagoano abriga a cidade de Arapiraca, palco para que Leandro Alves construa, em Movimento Perpétuo, uma narrativa híbrida etérea ao redor de um morador nato e enraizado naquele local: Seu Edvaldo é parte quase que indissociável dali. O diretor dá início ao longa lançando-nos a esse homem no mato, na floresta, sem camisa, apenas de calção, à vontade, em meio ao breu. O ser integrado ao espaço vai permitir o retrato de um modo de vida, além de imprimir ao filme um aspecto fabular, onde o protagonista, que se descobre necessitado da segunda cirurgia no coração, busca na natureza, na astrologia e no cinema as respostas para os mistérios da vida.

Primeiro veio uma água fria, depois uma água quente no coração”. É assim que Seu Edvaldo narra a seu médico os sintomas de obstrução de mais uma veia. O tom de metáfora própria de um jeito peculiar, simples e poético de comunicar as coisas, vai se mesclar com as possibilidades narrativas e estéticas proporcionadas pela passagem de um cometa verde que é anunciada pela imprensa na região, e pela obsessão do personagem com um livro chamado Lunário Perpétuo, uma “bíblia” que fala sobre tudo que há no mundo, da matemática à cura de doenças. A ficcionalização de determinados aspectos da vida de uma pessoa real faz com que nos aproximemos de modo afetuoso desse senhor tão imerso em sua rotina de sempre e em sua sabedoria.

Movimento Perpétuo opera com o desmonte de contradições em prol da atmosfera sideral de ficção científica em meio ao agreste que permeia o longa. Nesse local desconhecido por muitos, tecido pelo diretor como sobrenatural, discute-se, através da emblemática figura de Seu Edvaldo, tecnologia, medicina, estrelas, cometas, ecologia, máquinas, religião e o futuro do mundo. Ao ser perguntado, ele diz se sentir um elemento da natureza, elemento esse que, com a vida ameaçada pelas veias obstruídas, manifesta seu medo de ser esquecido, evidenciando a intenção do filme de eternizá-lo. 

Em se tratando de um retrato, ainda que com pitadas de ficcionalização, da vida de pessoais reais, a proposta reflexiva de Movimento Perpétuo vem, através dessas personagens, de modo encenado, muito embora haja uma naturalidade inerente que torna a encenação uma espécie de charme do filme. Morena, esposa de Seu Edvaldo, por exemplo, conta-nos sua história de forma ensaiada num plano longo, ao mesmo tempo em que acaricia um filhote de cachorro, à vontade em seu colo, de barriga para cima. Ou ainda, também em plano longo e estático, assistimos Seu Edvaldo cozinhar, sob uma trilha sonora de ventania e tensão, enquanto várias galinhas permanecem empoleiradas, tranquilas ao seu redor na cozinha. A performance, por mais artificial que seja, funciona com a naturalidade permitida pelo ambiente.

A introdução do cinema como parte inerente da meditação do protagonista é trazida por “Hulk”, um homem obcecado pelos quadrinhos e amante da sétima arte. Ele detém a estrutura do fazer-cinema: câmeras, drones, aparatos de montagem, além de uma vasta coleção de filmes. Em sua abordagem, notamos contradições entre as gerações de tecnologias disponíveis, já que os personagens conversam em meio a aparelhos de fita cassete, som, e instrumentos antigos que já possibilitaram o acesso à arte. A arte vai conectar os dois personagens, criando o elo entre eles, de modo que é função também de “Hulk” registrar a existência do protagonista e fornecer a ele os recursos disponíveis para tanto.

Através de um rádio primitivo, Seu Edvaldo tenta fazer seu câmbio com o universo. Sem sair de Arapiraca, ele reflete, com seu modo de viver, com suas lunetas e parafernálias, com livros e cinema, deixando sua marca nesse mundo infinito, de movimento constante – é ele mesmo o cometa verde que passa, e é impossível não notá-lo com interesse e afeto.

Nota:

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  • Advogada, cofundadora, editora e crítica de cinema no Coletivo Crítico. Formada pelo Talents Rio da Berlinale e Goethe Institut. Membra do júri da Latin American Critics Awards for European Films.

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