Ruídos | 2025
O horror nos pequenos incômodos cotidianos
Perturbações sonoras são algo comum em discussões entre vizinhos em todo o mundo. Barulhos insistentes e repetitivos vindo de cima ou da parede ao lado podem ser enlouquecedores para quem os ouve. Muitas vezes há uma sensação de impotência em relação ao controle desse incômodo, pois é preciso, de certa maneira, invadir o limite do outro para resolver tais questões. Em Ruídos, longa-metragem de estreia do diretor coreano Kim Soo-jin, os aspectos dessa realidade cotidiana são transformados em um verdadeiro ciclo de terror.
Sem ser exatamente original, Ruídos reutiliza algumas ideias clássicas de filmes sobre espíritos e demônios, já tão explorados no cinema de horror coreano, mas faz um trabalho interessante ao encaixá-las em discussões do dia-a-dia ligadas à realidade da população asiática que vive em grandes prédios, com finas paredes e muitos apartamentos.
A jovem Joo-hee (Han Su-A) vive sozinha em um desses apartamentos, parecidos com os que vemos em filmes como Uma Chamada Perdida (2003), do japonês Takashi Miike, por exemplo, onde diversas residências se interligam por um estreito corredor voltado para área interna do edifício. Ela é constantemente perturbada por ruídos insuportáveis vindos do andar de cima. Um dia, Joo-hee desaparece sem deixar vestígios, e sua irmã, Joo-young (Lee Sun-bin), retorna ao prédio em busca de seu paradeiro. Ao chegar, começa a ser frequentemente ameaçada por Park Geun Bae (Ryu Kyung-soo), seu vizinho do andar de baixo, que a acusa de produzir sons incessantes durante a noite — embora o barulho não venha de seu apartamento.

Kim Soo-jin consegue produzir personagens bastante assustadores, baseados apenas em suas interpretações e expressões corporais, sem uso de efeitos especiais mirabolantes, sem apelar para jump scares. A figura de Park Geun quando está enlouquecido e determinado a acabar com a vida de quem acredita ser a fonte de sua tormenta, é alucinada, com olhos vidrados e raivosos. Assim como a personagem da vizinha do apartamento de cima de Joo-hee, uma mulher mais velha, que parece serena e vive um luto pela perda da filha pequena, mostra sua faceta possuída e psicótica com louvor.
Na tentativa de desvendar o mistério do desaparecimento da irmã, Joo-young descobre que outros moradores também enfrentaram o mesmo tormento antes de sumirem. Sua única proteção contra a loucura é o fato de ser deficiente auditiva: poder silenciar o horror ao redor é o que ainda a mantém lúcida. O longa coreano então brinca com esse jogo de som e silêncio, mexendo com a realidade diegética do filme, nos fazendo por vezes entrar na cabeça de Joo-young e experenciar um pouco de sua surdez.
Ruídos se sai bem em trazer tramas baseadas em relações cotidianas contemporâneas perturbadoras para a ficção, transformando um transtorno comum em algo apavorante. Os ambientes são claustrofóbicos, escuros ou com iluminação quente dentro dos apartamentos, e no insalubre e labiríntico porão do edifício. Com um nível de gore moderado, explorando a violência física, mas não fazendo dela a força principal do filme, o longa equilibra seus momentos de tensão com o terror psicológico, onde a violência permeia as situações através das explosões de fúria, ameaças ou de pinceladas visuais macabras vindas como uma lembrança ou flashback.
