Punku | 2025

Punku | 2025

Muito embora palavras bem representem determinados estados emocionais, sensoriais e sentimentos, há de se reconhecer que é imensurável o privilégio que nós, viventes dos tempos pós-revolução industrial, usufruímos por sermos contemporâneos ao cinema, que passou de mero reprodutor de imagens em movimento para elevar-se ao status de arte. Esses mesmos estados e emoções esmiuçados pela escrita ganham uma proporção de representação quase que transcendental através da imagem: é a transferência da ideia formada pela capacidade imaginativa cerebral diretamente para a tela. Assim, o ser humano tornou-se habilidoso em extrair da mente memórias, experiências, situações reais ou fictícias, estados, sensações e sonhos, para concretizá-los visualmente. 

Punku, longa-metragem peruano dirigido por Juan Daniel Fernández Molero, vencedor do prêmio da crítica Abraccine de melhor filme do 19º CineBH, agarra-se em raízes lynchianas justamente para construir sua narrativa na expressão de dois estados de sonho distintos, que se conectam pelos personagens que os vivenciam. Ambientado na Amazônia peruana, Meshia (Maritza Kategari) é uma adolescente que encontra em sua comunidade um menino identificado como Ivan (Marcelo Quino), que descobre estar desaparecido há mais de dois anos. Ela se torna a responsável por levá-lo para o hospital da cidade para uma cirurgia de emergência em um de seus olhos, totalmente infeccionado, e os dois passam a nutrir, a partir dali, uma relação de cuidado e amizade. 

Meshia sonha em ser tão famosa quanto Kim Kardashian, quer ganhar um Oscar, tirar fotos e ter um fã clube. Ela vivencia a ilusão com o que há de mais palpável para sua realidade: participar do concurso de beleza regional “Miss Sereia”. A personagem vive, portanto, na vida concreta, o estado ilusório de entorpecimento dos concursos de beleza, o mais próximo que ela pode chegar de se parecer com Kim Kardashian. 

Ivan, por outro lado, é perseguido pelos traumas de um passado que não nos são inteiramente revelados. Vivendo boa parte de seu tempo acamado por sua debilidade, experimenta um outro estágio de sonho: o dos pesadelos. Acessamos seu mundo de tormentos, símbolos misteriosos e sensações aterrorizantes, e o diretor modula esteticamente Punku por completo para nos inserir nesse universo de estranhamentos, fechando a razão de aspecto e compondo o delírio através de uma fotografia monocromática com tons de prata envelhecido, potencializando o impacto dessa viagem mais sensitiva do que de busca de significados. Elementos do horror found footage fazem parte dessa composição, que traz olhos sendo devorados, homens sem rosto que perseguem o personagem, e figuras místicas e sobrenaturais, o que resulta na paranormalidade dessa atmosfera onírica.

A juventude peruana retratada por Fernández Molero é movida por sonhos inalcançáveis, existentes em vida concreta ou apenas no inconsciente, entorpecida pelas sensações desse estado, que por mais negativas que sejam, diretamente impactam no modo de enxergar a vida. Com fluidez e sem compromisso com mensagens ou significados inteiramente decifráveis, Punku é, de fato, uma jornada de crescimento sob pontos de vista de vivências juvenis que, em que pese a necessidade de apego ao irreal, ainda mantém nos afetos algo de concreto que impede a entrega ao devaneio.

Punku nos engana em certa medida, ao parecer ser uma obra sobre Ivan e seu inconsciente, até inserir Meshia em seu destino para atribuir a ela o protagonismo. Suas ilusões, que a conduzem por entre situações sem que ela reflita para onde está caminhando, provocam, inevitavelmente, ponderações a respeito da exploração, do papel e das possibilidades dadas às mulheres naquele contexto. A personagem, cuja beleza não a destaca de seu meio e destoa do padrão imposto pela televisão, pelas propagandas e pelo próprio cinema, apesar de inserida nesse mundo de julgamentos e avaliações de pessoas apenas por sua aparência física, mostra-se surpreendentemente consciente quando encontra a decepção. Sua intérprete a mantém sempre com um sorriso inocente no rosto, como se ela aceitasse aquilo que lhe é dado pela vida – o que não a torna mais fraca, mas que denota resiliência.

Punku nos insere em outro tempo, o tempo onírico que paira, inclusive, na própria realidade, o estado de transe, para proporcionar uma experiência de intensa imersão imagética, magnética em seu efeito. Representativo de dois estados de sentir e de estar distintos, suas idas e vindas pelos universos dos dois personagens quase soam como dois filmes, e Fernández Molero consegue costurá-los através desse estudo de juventude, cuja realidade é distorcida tanto por traumas quanto por imposições externas, como a cultura estadunidense onipresente na ilusão de Meshia.

Nota:

Author

  • Advogada, cofundadora, editora e crítica de cinema no Coletivo Crítico. Formada pelo Talents Rio da Berlinale e Goethe Institut. Membra do júri da Latin American Critics Awards for European Films.

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