Massa Funkeira | 2025

Massa Funkeira | 2025

Sexo não é tabu no Funk

Quem olha do centro para a periferia, com o queixo para cima e ar de superioridade, certamente não se reconhece como parte daquele espaço. Vê criminalidade e pobreza, relegando às margens aquilo que julga improdutivo e violento. Esse é o discurso da elite que se propaga pelo senso comum e descamba em decisões políticas excludentes que aumentam a discriminação. Mas lá do alto do morro vibra um som, o funk carioca que em Massa Funkeira, documentário de Ana Rieper, reverte essa lógica ao nos levar para lá, para ouvirmos de quem vive e produz essa cultura marginalizada o que ela realmente representa.

A grande sacada da diretora está em fazer seu filme ir além de uma análise sociológica sobre o fenômeno do funk, mas pensar uma construção inconsciente de uma sociedade que interdita desejos e não os suporta sendo expostos pela música periférica. O tabu do sexo e a sua popularização pelo estilo musical é tudo aquilo que foi reprimido pelas elites moralistas e que aos compositores é instrumento de provocação. MC Dandara, uma das entrevistadas, conta que, ao perceber que suas letras melódicas não faziam mais sentido para o mercado da música, teve que afirmar: “a moda agora é putaria”. Então, passou a cantar sobre a libertação sexual feminina e criou grandes hits dos anos 2000.

Massa Funkeira é nostálgico ao reunir relatos de grandes celebridades do Furacão 2000, a produtora que catapultou o funk no Brasil e no exterior, como Tati Quebra Barraco, O Bonde do Tigrão e Valesca Popuzuda. O primeiro ato do documentário reforça esse saudosismo explorando a dramaticidade das vidas dos personagens, muitos contando de suas condições de pobreza e o auge da esperança e do sucesso proporcionados pela música. A câmera transita pelos becos e entra na casa dos MCs para ouvir como tudo começou e os efeitos do funk em suas realidades. Da mulher explorada no trabalho à mãe-funkeira que conseguiu sustentar a casa com sua música, ao garoto que escapou das garras do tráfico para virar um dos grandes compositores da comunidade.

O sexo é o guia que leva o enredo até os bailes de rua que viram a noite, onde cantam a tal da putaria. O drama dá lugar ao humor ácido dos personagens que falam sobre suas inspirações e fetiches sexuais. Todos comungam de uma mesma ideia, mesmo que de maneiras diferentes, para dizer que o funk é propositalmente uma forma de provocar as elites, de mostrar aquilo que é adornado pelo moralismo branco, rico, heteronormativo e machista.

Quando Massa Funkeira consegue focar nessa perspectiva, surgem novas pautas muito interessantes, como o papel das redes sociais na divulgação da comunidade, as possibilidades escassas de ascensão social, a hipersexualização de corpos negros, e, principalmente, ideais da luta feminista. Algumas entrevistas fazem perder essa coesão e retiram um pouco de energia do filme, o que parece mais servir ao sentimento de nostalgia de quem assiste do que propriamente ao enredo.

Ana Rieper soma à sua filmografia mais uma obra que esmiúça a relação do artista com a realidade brasileira, um discurso estético e político indissociável. Em tempos de conservadorismo e avanços na criminalização da pobreza e da cultura popular, Massa Funkeira é corajoso e importante para atingir aqueles que são cooptados por esse sistema excludente e sequer fazem um esforço empático para compreender os fenômenos complexos Brasil afora.

Nota:

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