Sorry, Baby | 2025

Sorry, Baby | 2025

Uma amizade e dois caminhos que sempre se encontram

Falar de trauma e depressão sem ser piegas faz de Sorry, Baby uma forma delicada e bem humorada (sem perder a melancolia) de se encarar as dificuldades da juventude feminina e de viver a pior parte de ser mulher: a de sofrer abuso de um homem. O primeiro longa-metragem dirigido pela atriz e escritora americana Eva Victor é uma comédia coming-of-age onde, dividido em episódios, acompanhamos transformações nas vidas de duas amigas e como elas se apoiam em suas jornadas.

Anges (Eva Victor) é uma estudante universitária que vive no interior dos Estados Unidos, em uma casa pequena e remota destinada à alunos. O clima é frio, com um sol suave que inunda de luz e traz um pouco de vida às árvores ressecadas pela geada. A jovem protagonista interpretada pela diretora é uma personagem densa, com humor bastante peculiar, introspectivo e melancólico, mas sarcástico e carismático. 

Através dos capítulos, que aparecem bem demarcados no longa, conhecemos  Lydie (Naomi Ackie), ex-colega de quarto de Agnes, que retorna ao local onde moraram juntas para uma visita e para contar a novidade de estar grávida, um tempo depois de estar noiva. A vida da amiga de Agnes evolui completamente fora dali, parece haver um abismo entre as duas, que agora vivem distantes, mas assim que essas mulheres se reaproximam, se entendem perfeitamente como se nunca tivessem se distanciado. 

Sorry, Baby mescla os momentos de intimidade de Agnes e Lydie, com o universo estudantil em idas e vindas no tempo. Nos apresenta a realidade do campus universitário, e como os outros jovens do mesmo curso que Agnes têm dificuldades em assimilar diferenças, além de um forte clima de competição, especificamente com Natasha, personagem feminina interpretada por Kelly McCormack, que explicitamente inveja e não gosta de Agnes, mas ao mesmo tempo a admira de uma maneira torta.

Preston Decker (Louis Cancelmi), professor de literatura e orientador da tese de Agnes, é a figura masculina desestabilizadora em Sorry, Baby. Munido de uma aparência pacata e charmosa, o professor revela interesse no trabalho da jovem, tecendo elogios nas reuniões entre alunos. Em sua função de orientador, Decker marca uma reunião com Agnes, à tarde, em sua casa. A jovem entra sozinha, não entramos com ela. A direção opta por nos fazer esperar do lado de fora da residência, em um plano de câmera fixa enquanto o tempo (bastante tempo) passa, marcado pela luz do dia indo embora. Só voltamos a ver Agnes quando o céu está escuro e a jovem saí correndo pela porta, com os sapatos na mão, entra em seu carro e começa instintivamente a dirigir em direção à sua casa.

This image released by A24 shows Eva Victor in a scene from “Sorry, Baby.” (A24 via AP)

A forma como Agnes foi abusada é narrada timidamente e vagarosamente por ela à amiga. Lydie a ouve com atenção e acolhimento, tentando compreender o que a amiga mal estava conseguindo assimilar. “Aconteceu aquela coisa ruim”, diz Lydia constatando que sua amiga foi mesmo sexualmente agredida e toma as providências para que ela consiga alguma assistência hospitalar. 

Sorry, Baby atinge um contraste interessante entre essa relação de amizade tão intensa e verdadeira, nos fazendo vibrar com as conquistas de Lydie e emocionar com o carinho como tratam e cuidam uma da outra, mas ao mesmo tempo, alerta para uma sociedade fria e hostil, que não tem sensibilidade para lidar com casos de estupro, nem dentro da universidade e nem em hospitais. É uma burocracia dura que passa por cima da vítima, a enxergando apenas como mais um caso a ser registrado.

O filme, apesar de ser uma comédia, trata de questões incômodas e o faz com bastante sutileza, deixando escorrer o humor onde melhor lhe cabe: nos momentos de alegria entre amigas e no sarcasmo da protagonista para conseguir sobreviver a seu trauma e sua dor. Agnes é uma vítima, mas é também uma mulher forte e inteligente, que não se paralisa, mesmo levando muito tempo para assimilar o que aconteceu com ela, mesmo encontrando em situações corriqueiras gatilhos que despertam crises de ansiedade. Ela segue a vida e sabe que não está sozinha.

Nota

Author

  • Jornalista carioca, editora e crítica de cinema. Tem foco de interesse e pesquisa em cinema de gênero e feito por mulheres.

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