Sauna | 2025

Sauna | 2025

O documentário Salão de Baile, dirigido por Juru e Vitã, celebra a cultura de bailes de origem nova-iorquina no Brasil, e exalta, via de consequência, a própria comunidade LGTBTQIA+ que ali encontra seu pertencimento. Carrega, entretanto, uma honestidade ao não procurar ocultar a existência de opressões dentro dos próprios grupos oprimidos. Questões de raça, gênero, classe social, padrão de beleza e resistência à não-binariedade permeiam a comunidade, refletindo, assim, uma lógica de exclusão semelhante à da sociedade heteronormativa e branca – no interior de grupos historicamente marginalizados, reproduzem-se relações de poder e hierarquia.

Sauna, longa dinamarquês de Mathias Broe em competição na mostra Novos Diretores da 49ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, pauta com igual sinceridade os abismos que se impõem entre os relacionamentos LGBTQIA+ em razão da identidade de gênero, do próprio gênero, da orientação sexual e da classe social. Em suas particulares lutas, homens gays continuam sendo homens e podem reproduzir ideologias machistas e transfóbicas. Por outro lado, pessoas trans podem ser privilegiadas pela classe e continuam a gozar de seus status sociais, de modo que pode faltar compreensão quanto às atitudes de pessoas pertencentes a classes menos abastadas. E ainda, um homem trans em fase de transição pode seguir sendo lido por seu sexo biológico, sendo duplamente excluído – pelo machismo e pela transfobia.

Johan (Magnus Juhl Andersen) é um jovem que trabalha como recepcionista na Adonis, única sauna gay da capital Copenhague. O estabelecimento, direcionado ao público masculino homossexual, oferece socialização íntima e troca sexual com parceiros anônimos, e o protagonista é livre para experimentar o espaço para além do trabalho que exerce ali. Adepto à busca do amor pelas redes sociais, ele conhece, via app, William (Nina Rask), que descobre ser um homem trans em processo de transição e dependente da autorização de sua cirurgia pela clínica de identidade de gênero local.

As saunas gays, espaços de resiliência histórica e pertencimento que surgiram nas décadas de 1950 e 1960, tornam-se, em Sauna, palco de opressão contra William, e de obstáculo para o amor sincero que surge entre eles. Não deixa de ser, entretanto, espaço para que o diretor explore o erotismo sem medo. Mathias Broe abre as portas desse ambiente privado e que originalmente foi alvo de criminalização e luta contra o moralismo, para expor a liberdade homossexual como ato de resistência, inclusive, cinematográfica. Com a câmera na mão, o diretor não teme movimentá-la sobre corpos em fogo que transbordam tesão, imprimindo ao próprio sexo a potência de luta.

Quando o sexo casual entre Johan e Willian evolui para afeto, é bonito como Sauna transita dos ambientes fechados, de pouca iluminação ou sob luzes de tonalidades eróticas (o vermelho se faz muito presente) para espaços abertos, amplos e radiantes, com o sol encontrando os corpos apaixonados, que deixam de ser ocultos para reunirem-se ao redor de uma mesa bem romanticamente posta para uma refeição compartilhada. A vida e a rotina a dois passa a ser regra, e os personagens nutrem um pelo outro afeto suficiente para superarem, ao menos momentaneamente, suas diferenças, principalmente, com relação à falta de compreensão de Johan quanto à transição de gênero do namorado – muito embora ainda tenha muito a aprender, ele não hesita em roubar seu empregador em prol de custear a cirurgia de transição do amado.

É justamente nesse ponto – o custo da cirurgia de transição – que potencializam-se as diferenças de classe entre os personagens, e Sauna imprime uma dualidade e complexidade pertinentes à personagem de Willian nesse sentido, evitando representá-lo como uma vítima maior ou absoluta. Muito embora Johan tenha perdido o emprego para ajudá-lo, Willian facilmente obtém o financiamento e apoio de seus pais nessa empreitada. Seus privilégios, ali, serão determinantes para que aprofunde-se ainda mais a distância entre eles, concedendo às relações de poder um peso ambíguo, sem assumir nenhum compromisso de oferecer soluções.

Sauna apresenta e dá publicidade a questões fundamentais a respeito da comunidade LGBTQIA+ como estrutura social, que sem esforços como o de Mathias Broe, ficam restritas ao próprio seio comunitário. O faz, entretanto, através de uma história de amor construída por uma narrativa fílmica erótica, onde o tesão pulsa, e sem binarizar o debate. E há de se celebrar, sempre, enquanto houver luta, cada filme destemido como um ato de resistência.

Nota:

Author

  • Advogada, cofundadora, editora e crítica de cinema no Coletivo Crítico. Formada pelo Talents Rio da Berlinale e Goethe Institut. Membra do júri da Latin American Critics Awards for European Films.

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