Sonhadoras | 2025
O amor que nasce em circunstâncias adversas
Uma das facetas mais relevantes do cinema, principalmente se lançarmos a ele uma visão a partir do Direito, é a possibilidade de a arte dar voz a grupos de pessoas que foram silenciadas. Em Sonhadoras, seu longa-metragem de estreia, a diretora nigeriana Joy Gharoro-Akpojotor traz a história de um romance lésbico que surge e se desenvolve dentro de um centro de detenção para imigrantes, o Hatchworth Removal Centre, situado em Londres.
Há, de início, uma contextualização muito clara de como são tratados os imigrantes ilegais que foram descobertos e capturados, que têm como elemento mais interessante a absoluta identificação daquele centro com uma prisão, com a vigia perene dos policiais, os diversos grupos no pátio, as intimidações, ameaças e violências ínsitas a esse local.
Isio (Ronkẹ Adékoluẹjo) é apreendida e colocada nesse centro de detenção e, desde o início de sua permanência no local, já é informada por sua colega de quarto Farah (Ann Akinjirin) que, ao contrário do que dizem, os vigilantes “não estão lá para ajudar”.
Sonhadoras se desenrola a partir dessa aproximação entre elas e, posteriormente, no romance que surge. Enquanto Isio, há menos tempo reclusa, ainda acredita nas possibilidades legais de apelo para sair daquele ambiente hostil, Farah parece já ter se desamarrado da ideia de conquistar sua liberdade por meio do direito e da burocracia estatal.
Como afirmado, há um grande mérito no filme em retratar uma situação específica que, ao que me parece, não é comumente retratada em filmes e séries. O sofrimento dos(as) imigrantes que foram presos(as) e o tratamento a eles dado é bem traduzido nas cenas dirigidas por Gharoro-Akpojotor, cuja história, em parte, é reproduzida a partir da personagem Isio que, como a diretora, buscou asilo fora da Nigéria pelo fato de que a homossexualidade lá é criminalizada.
O apelo de Isio visando à permanência na Inglaterra utiliza como fundamento o fato de ser homossexual e essa orientação sexual ser proibida em seu país natal, no que a Gharoro-Akpojotor é bastante hábil em conduzir uma cena forte que traz Isio fazendo sua autodefesa no processo de pedido de asilo.
A cineasta também consegue traçar, com precisão (ainda que de forma excessivamente expositiva), várias das violências estatais sofridas por ela nesse processo, destacando-se as perguntas invasivas e desrespeitosas de um agente público acerca de sua sexualidade para, ao final, indicar que não haveria comprovação suficientemente forte para se “afirmar a homossexualidade” e, consequentemente, a possibilidade de legalmente permanecer na Inglaterra.
O filme parece perder força quando se desvia dessas denúncias e questões mais ligadas à imigração. Ao abordar com mais robustez o romance entre Isio e Farah que, apesar de estarem submetidas à mesma situação, têm diferentes formas de lidar com as expectativas de sair dali, vários “obstáculos” parecem minar a força dramática que o filme deseja ter e escancaram a falta de maiores cuidados com o roteiro.
Dentre esses obstáculos está a forma ineficaz e rápida com que se busca desenvolver a relação amorosa entre elas (que se torna o principal tema do filme). Além dessa forma apressada, o casal padece de uma completa falta de química entre as atrizes, que, a partir de diálogos mecânicos e atuações unidimensionais que não dão conta de expressar um maior afeto entre as companheiras, fazem com que o espectador não consiga “embarcar” naquele romance representado, como dito, mecânico e artificial.
O desfecho do longa-metragem dirigido por Joy Gharoro-Akpojotor, que tenderia a ser o clímax, o momento catártico, acaba por ser decepcionante, sobretudo pelo fato de vários dos seus aspectos serem pouquíssimos críveis naquele contexto.
Desta feita, Sonhadoras parte de um pano de fundo extremamente promissor e que chama atenção para uma realidade dura e que merece ser mais trabalhada no cinema de modo geral, mas que, ao desviar suas atenções para o romance de Isio e Farah, em que pese a óbvia importância da retratação daquele casal e a solidariedade e o empoderamento daquelas mulheres, acaba perdendo grande parte de sua potência e força dramática.
Fica claro que a direção tinha boas intenções, mas a artificialidade com que tudo é feito é suficiente para afastar o espectador de um maior envolvimento com aquela história de amor, o que indica, portanto, que aquelas boas intenções poderiam ser muito melhor executadas.
