A Irmã Mais Nova | 2025
Uma descoberta queer cheia de surpresas e sem alardes
O filme de estreia da diretora e também atriz Hafsia Herzi pode soar para alguns como um filme panfletário queer, pois em meio a sua complexa narrativa insere situações icônicas a cerca de relacionamentos homoafetivos. Como, por exemplo, momentos de curtição em uma boate lésbica, onde o público vibra entoando em coro frases que expressam suas liberdades sexuais. Também evidencia situações de homofobia vindas de jovens cis europeus em idade universitária. Porém, em A Irmã Mais Nova, vemos uma intenção para além da representatividade LGBT, com uma abordagem que internaliza os dilemas de sua protagonista, resultando em uma obra delicada e original sobre o tema.
Acompanhamos os dilemas de Fatima (Nadia Melliti), uma jovem muçulmana de 17 anos que se muda para Paris para estudar filosofia e se descobre gay, tendo que lidar com sua sexualidade e identidade diante de uma criação familiar religiosa e tradicional. Observamos que a base familiar é bastante importante e significativa para a jovem, a mais nova de três irmãs e que mantém rigorosamente seu ritual de orações, destacando que a religião é algo internalizado e marcante nela. Ao passar a conviver com estudantes de outros lugares do mundo, Fatima se redescobre. As transformações nas escolhas dela são sempre refletidas de forma silenciosa, ela lida com suas novas vontade e desejos internamente, vive experiências inéditas que só ela e nós sabemos enquanto espectadores, mas que seus colegas homens e sua família nem imaginam.
A direção de Herzi demonstra segurança e sensibilidade ao conduzir uma narrativa de auto descoberta, um coming of age que passa por todos os sofrimentos que vem junto com as mudanças decorrentes do amadurecimento, mas sem ser hostil com a protagonista. Fatima normalmente se veste com roupas mais relacionadas ao gênero masculino, usa boné, bermuda e camisa larga, é fã de futebol, esporte que pratica de forma apaixonada. Quando a conhecemos ela namora um rapaz, também de religião muçulmana, que tem a intenção de firmar compromisso com ela e esse é um assunto que acaba voltando em conversas ao redor da mesa de casa com sua mãe. Fatima, no entanto, percebe que algo está diferente e que não é este caminho que quer seguir.
O filme estreou no Brasil na 49ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e Nadia Melliti se mostra uma atriz revelação em seu primeiro trabalho no cinema, ganhando o prêmio de melhor atriz no Festival de Cannes. A Irmã Mais Nova de fato é guiado por ela, a fotografia insiste em fazer closes bastante aproximados de seu rosto, de seus gestos e olhares, trazendo Fatima para o centro de tudo, e suas descobertas silenciosas se revelam intensas e envolventes. Partindo da total inexperiência, a jovem começa a aprender com outras mulheres sobre as nuances do prazer feminino, em cenas interessantes e bastantes verbais, como quando ela tem uma conversa com um date que não deu tão certo dentro de um carro. Ela está atenta a tudo e colhendo informações com a curiosidade de uma aluna interessada.
Vemos Fatima passar por uma primeira paixão arrebatadora e pelos sofrimentos decorrentes de decepções amorosas, tudo isso unido a uma constante reflexão sobre seus próprios desejos, sobre expandir ou não seus limites internos. Herzi é uma cineasta que imprime um olhar feminino e empático sobre a trajetória de Fatima, não permitindo que ela seja cruel com si própria e nem que outras pessoas sejam hostis e cruéis com ela, construindo um retrato sincero e emocional da passagem da adolescência para a vida adulta.
Herzi conduz a história sem pressa. Prefere muito mais o silêncio, os olhares e os gestos às palavras e às explosões dramáticas, expressando as emoções com naturalidade. O resultado é um filme que progride e cresce junto com Fatima, sobre amar, se respeitar e se reconhecer em meio às contradições da vida.
O longa foi vencedor do prêmio de melhor atriz, para Nadia Melliti, e da Palma Queer no Festival de Cannes.
