Foi Apenas um Acidente | 2025
Um trauma de cinco sentidos é um pesadelo que somos incapazes de fazer morrer. Certos impactos são corrosivos o suficiente para impregnar de mácula cada poro da pele humana, cada vibração que chega aos ouvidos, cada imagem que preenche o olhar, cada cheiro exalado, cada sabor percebido pela língua. Já não há mais meios de dissociar a dor do ser. Muito embora seja possível armazená-la, momentaneamente, em lugares ocultos do corpo, ela renasce como fênix, não como símbolo de resiliência, mas de derrota – o esforço para vencê-la jamais será suficiente, pois a ferida é muito mais insistente que seu portador.
A fênix que ressurge inesperadamente, trazendo com ela sofrimentos passados, aparece no filme vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes 2025, Foi Apenas um Acidente, do diretor iraniano Jafar Panahi, como gatilho de um desejo de vingança cuja potência faz paralisar a vida de suas vítimas em prol do objetivo único de, definitivamente, punir e fazer desaparecer o trauma. O acaso, aqui representado por um pequeno acidente de carro sofrido por uma família (pai, mãe grávida e filha) e que causa a morte de um cachorro, obriga-os a fazer uma parada numa oficina mecânica de estrada. Ali, naquele espaço improvável, o som peculiar ecoado pelos passos dados pela perna ortopédica de um homem fará da audição o sentido que despertará a revisita da dor.
Coincidência ou destino, um acidente que, por si, não traria consequências para além da vida perdida do animal e da chateação da filha pequena, dá o impulso para que o cinema de Jafar Panahi tome forma, caracteristicamente, como um fio puxado de um novelo que desenrola infinitamente e de forma imprevisível. Um fato menor desencadeia outros que vão se enredando numa bola de neve que acumula tamanho e arrasta com ela o caos. A partir dele, trabalhos são interrompidos, um casamento é paralisado, uma mulher dá à luz e um homem está prestes a ser assassinado. A dúvida é se tal homem é, de fato, o alvo correto.
Não almejo, aqui, revelar muito daquilo que cabe ao espectador de Foi Apenas um Acidente descobrir. Mas é importante que se mencione que o homem que ressurge conecta cinco vidas e muda, repentinamente, seus rumos, ao revelar-se a fênix traumática que estava adormecida. Caberá a esses personagens reconhecer esse algoz, e os sentidos que memorizaram a dor de outrora serão utilizados para a identificação que definirá a vingança. O tato de suas cicatrizes, o odor de seu corpo, o ruído de seu caminhar, são detalhes que constituem peças para que esse quebra-cabeça seja (re) montado.
É uma eventualidade curiosa que Foi Apenas um Acidente dialogue tanto com O Agente Secreto de Kleber Mendonça Filho. Ambos integraram a Competição do Festival de Cannes 2025 e foram premiados, mas essa não é a principal conexão entre eles. Em contextos regionais e políticos diversos, os dois filmes exploram as incuráveis mazelas geradas por regimes autoritários. No Irã ou no Brasil, o opressor é uma figura que não conseguimos assassinar, literal ou figurativamente. E Jafar Panahi vai personificar essa imortalidade através deste homem encontrado ao acaso.
O pesar, o ferimento do corpo e da alma que nunca fecha, é sentido por pessoas que apenas querem viver pacificamente. Na vida, equilibram-se acontecimentos que fazem rir e chorar, e é possível encontrar humor, inclusive, nos momentos dolorosos. O cinema de Jafar Panahi, e especialmente em Foi Apenas um Acidente, faz exatamente isso. Rimos dos absurdos do acaso, mas somos golpeados, em contrapartida, em uma medida ainda maior.
