Jovens Mães | 2025
As raízes da estruturação social da família como tradicional, composta a partir do patriarcado, da heterossexualidade e da hierarquização de poderes, são muito mais pautadas com intuito econômico e de controle do que a partir do afeto em si ou do desejo genuíno de união entre duas pessoas. Ainda que haja conscientização a respeito da razão capitalista do modelo familiar padrão, ainda que o anticapitalismo seja propósito e luta na vida de muitos, somos encurralados por ele. O cinema realizado pelos irmãos Jean-Pierre Dardenne e Luc Dardenne constitui-se instrumento de denúncia das misérias desse sistema que nos aprisiona, sob o ponto de vista dos que são mais oprimidos. Trabalhadores, pessoas comuns, em situação de vulnerabilidade e pobreza, imigrantes, mães solos – aqueles que são relegados à base da pirâmide social interessam aos diretores.
Jovens Mães, a mais recente obra dos diretores que recebeu o prêmio de melhor roteiro no Festival de Cannes 2025, expressa a agressividade das amarras da família nuclear naqueles que, pelas circunstâncias sociais, não conseguem segui-lo, mas que são maculados, psicológica, afetiva, moral e economicamente por essa imposição. Os Dardenne estudam, aqui, mulheres que engravidam ainda adolescentes, e que transitam entre a decisão de ficar com seus filhos ou permitirem suas adoções por outras famílias. O fantasma da estrutura familiar clássica que elas nunca tiveram (e estão longe de possuir) as assombra, num ciclo de violência perene e geracional em que elas e suas próprias mães são as principais vítimas.
São cinco as jovens mães alojadas em um abrigo onde aprendem a cuidar de seus bebês (nascidos ou não), acolhidas pelo serviço social e aconselhadas sobre a decisão de permanecer ou não com as crianças. Jessica (Babette Verbeek), Perla (Lucie Laruelle), Julie (Elsa Houben), Ariane (Janaina Halloy) e Naïma (Samia Hilmi), todas partilham, além da maternidade, o desejo de serem felizes, anseio este que parece quase que inalcançável diante de suas realidades tão discrepantes do ideal de felicidade. São meninas, em sua maioria, interiormente quebradas, dependentes químicas, narcóticas e alcoólatras em recuperação, abandonadas pelos homens igualmente jovens que as engravidaram, que fazem a escolha de recusar a paternidade e são protegidos, veja-se, por suas mães, sem que isso lhes ocasione qualquer consequência.
O realismo social que permeia a obra dos diretores, em Jovens Mães, segue como o fio condutor que recusa trilhas sonoras e outros elementos cinematográficos que isolam o espectador do mundo real. O que os Dardenne almejam é exatamente o oposto: convencer-nos de que permanecemos próximos da realidade. São personagens de natureza verossímil, com questões e dilemas comuns ao ser humano, que tomam decisões duvidosas e que existem para além de qualquer maniqueísmo. A câmera observadora que os segue nunca julga, mas expressa os acontecimentos de forma direta e crua.
A carga emocional do longa é extraída de sofrimentos palpáveis, e em Jovens Mães os diretores se dão ao luxo de elevar levemente o seu tom através de situações e atuações que as reforçam e findam por fugir sutilmente da crueza ali retratada. Brados como “minha mãe não me quer” que são acompanhados de uma reação imediata de mordida, ou as lágrimas compartilhadas de um casal adolescente que precisa dizer em voz alta seus sonhos e desejos, são pontos de escalonamento dramático ali visivelmente inseridos para pressionar uma comoção do espectador num contexto já comovente o suficiente.
A dinâmica do abrigo fornece às jovens mães partilha e sororidade ausentes em seus lares primários. Dividem tarefas domésticas, precisam cozinhar, e ali parecem ganhar forças para permanecerem longe de seus vícios. Semelhantes em suas vivências e experiências, elas se compreendem e são compreendidas, mostrando-se, em suas atitudes, tão crianças quanto seus próprios bebês. Os Dardenne tratam as garotas com gentileza, não problematizando que, vez ou outra, se abstenham de trocar fraldas ou alimentar seus filhos, pois estão quase tão famintas e frágeis quanto eles.
Para um filme que lida com mães solos em luta por suas dignidades, ou mulheres que não desejavam ser mães e foram arrastadas para essa situação, é no mínimo contraditório que Jovens Mães recorra a esperanças tão conservadoras em sua conclusão. Expondo meninas que são capazes de aceitar homens que apenas fiquem com elas sem assumir suas responsabilidades como pais, os Dardenne colocam suas esperanças de dignidade e vida melhor justamente nessa imagem clássica, onde mulheres parecem somente encontrar alento nas figuras masculinas que as rodeiam – ao invés de fazê-las felizes por si, endossa a dependência masculina. A denúncia da lógica estrutural familiar aprisionadora torna-se sua reprodutora.
