Mirrors nº 3 | 2025

Mirrors nº 3 | 2025

Os fantasmas de Petzold

Ainda que possa ser considerado, talvez (e de forma equivocada na minha opinião), um filme menor de Christian Petzold, por ser mais contido pela aparente singeleza da trama, Mirrors nº 3 ainda guarda a essência dos melhores trabalhos do diretor germânico, trazendo, com certa suavidade, mas não menos contundência, a questão da memória e os “fantasmas” que teimam em se fazer tão vívidos em certos contextos.

O início do longa-metragem nos traz Laura (Paula Beer) se negando, mesmo após uma viagem de carro, a permanecer em um compromisso com seu namorado e amigos. Após a recusa de Laura (o que sugere a fragilidade daquele relacionamento), seu companheiro oferece-se para levá-la de volta, ocasião em que, após uma distração durante a condução, é vitimado por um acidente automobilístico. Laura sobrevive e é acolhida e cuidada por Betty (Barbara Auer), uma senhora que vive na cercania.
A partir daí, o filme se destaca por envolver a trama de alguns mistérios que abrangem tanto Betty, seu comportamento e o do resto de sua família, mas também o da própria Laura que, mesmo diante da tragicidade do acontecimento que lhe acometeu, não parece estar enlutada e entristecida, senão aliviada. Correndo todos os riscos de incorrer em uma comparação pra lá de “forçada”, mas há um quê de Meursault (personagem de Camus na obra O Estrangeiro) em Laura e sua “apatia” diante da morte de alguém próximo.

É assim que Laura acaba por permanecer na casa de Betty e ali viver, sem qualquer tipo de estranhamento, pelo contrário, de forma muito harmônica. As chegadas do filho e ex-marido de Betty fazem com que o peso daquele mistério fique mais evidente, afinal, todos participam daquela “dança” sem maiores questionamentos, o que faz com que o espectador continue “no escuro”, tentando entender o porquê daqueles comportamentos estranhos, mas que não conflitam.

Digo que a chegada de Max (Enno Trebs) e Roger (Mathias Brandt) confere peso ao mistério porque percebem o que há de  estranho por ali, de certa forma, aderem àquela “encenação”, falando pouco sobre o que aconteceu naquela família antes da repentina chegada de Laura. É muito interessante quando Petzold os coloca como sendo personagens que consertam os eletrodomésticos e demais objetos no local: aquele lar parece ter muita coisa a ser reparada e, a partir da chegada de Laura, passam a ser consertadas.
Em uma cena muito potente, Betty acaba por nominar a dor: chama Laura por outro nome feminino. É Max que, não suportando mais o desconforto, expõe que aquela família acabara de perder um ente, a sua irmã, o que confere um norte ao espectador: Betty (e, de certa forma, também Max e Roger) simbolicamente está substituindo a sua filha falecida por Laura, o que parece fazer com que ela tenha encontrado uma serenidade há tempos não acessada.

O filme é muito beneficiado por atuações extremamente hábeis e que elevam o nível do longa-metragem. Os trabalhos de atuação (para além de Beer e Auer, também menciono Enno Trebs e Mathias Brandt) acertam em cheio no tom necessário para fazer o filme funcionar como deve, no que se destaca o trabalho de Paula Beer naquela personagem especialmente difícil de decifrar, em mais esta colaboração da atriz com o diretor alemão.

Assim, Petzold, de forma mais evidente, retorna em Mirrors nº 3 a este tema já tão amplamente retratado em filmes anteriores: a memória e os fantasmas que ficam. Aqui, há um “tempero especial” que é a certa oposição entre duas posturas muito distintas em relação ao luto.

Se Betty e sua família ainda são vítimas da dureza da dor da perda, Laura reage muito diferente à morte. Ainda que díspares, são as formas encontradas para lidar com a brutalidade do fenecimento. Mirrors nº 3 definitivamente não é um filme menor de Petzold. No silêncio das dores oriundas da morte e nas diversas reações (ou falta delas) que o luto desperta, o longa-metragem se sobressai pela sutileza e tom instigante, com pitadas de humor e mistério que em muito ajudam o espectador a ter uma maravilhosa experiência.

Nota:

Author

  • O representante do Pará no Coletivo Crítico que, entre o doutorado em Direito e os jogos do Paysandu, não dispensa uma pipoca para comer, uma Coca Cola gelada para beber e um bom filme para ver.

    View all posts

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *