Guarde o Coração na Palma da Mão e Caminhe | 2025

Guarde o Coração na Palma da Mão e Caminhe | 2025

Sepideh Farsi faz um filme brilhante baseado em videochamadas e uma relação de afeto

Guarde o Coração na Palma da Mão e Caminhe é um documentário dirigido por Sepideh Farsi, jornalista iraniana exilada que vive em Paris e retrata a vida em Gaza durante a campanha militar genocida israelense em curso. Isso acontece através da captura de videochamadas de Farsi com uma jovem moradora da região.

Farsi se coloca como personagem nesse filme, que parece ter crescido muito mais do que a diretora poderia imaginar. Incomodada com a impotência diante dos bloqueios à ajuda humanitária em Gaza, a jornalista observa de longe os massacrantes bombardeios ao povo palestino com inquietude. Ela resolve transformar esse incômodo em alguma ação possível: iniciando uma série de videochamadas com Fatima Hassouna — apelidada de Fatem — que, ao longo de um ano, dá origem a um diálogo transformado em uma comovente e surpreendente obra de arte neste filme.

Conhecemos Fatem através das filmagens da tela do celular de Farsi, com o rosto radiante inundando o ecrã, a fotógrafa palestina de 24 anos exibe um sorriso que conota esperança e alegria, apesar de sua dura realidade, em um estado sitiado sofrendo constantes e imprevisíveis ataques aéreos. “Eu não tenho medo de nada, porque eu não tenho mais nada a perder”. Essas são palavras de quem já perdeu tanto, que tudo mais que vier pela frente parece ser lucro.

Chama atenção no documentário a relação extremamente humana e afetuosa entre essas duas mulheres, no compadecimento da jornalista, que, por muitas vezes, expressa se sentir mal em sua posição privilegiada na Europa. Ela comenta com cautela sobre estar perto do mar, enquanto Fatem luta mais um dia contando com a sorte por estar viva.

O sorriso da jovem palestina, presente em quase toda a duração das videochamadas, é uma imagem que gruda em nossas mentes. Tudo que é registrado está cravado em uma realidade dilacerante de morte e destruição, um massacre degenerado que parece arrancar de Fatem parte de seu coração, seus entes e amigos queridos, mas não tira dela o que possui de mais belo e genuíno: sua alegria de viver e sua esperança.

Fatem relata os dias de fome (e são muitos), como seu corpo está fraco, sua mente divaga e ela se sente atordoada pela falta de nutrição adequada. Como ela pode estar nessa situação e ainda assim sorrir? – penso eu da minha poltrona confortável dentro da sala de cinema. Tais reflexões surgem o tempo todo, será que seu riso é um efeito colateral de seu enfraquecimento físico? Ou será que dá para realmente achar alegria e fé, mesmo em situações extremas como esta? O documentário de Farsi nos atinge assim, criando perguntas internas e enchendo nossas mentes com questões tão maiores do que as nossas, expostas com afeto e simplicidade.

A frase que dá título ao longa, “coloque sua alma em sua mão e caminhe”, é trecho de uma fala da jovem, enquanto relata como é a sensação de sair nas ruas, nos dias que precisa abandonar o confinamento domiciliar. Por vezes, quando não é por deslocamento forçado, a jovem sai para fotografar e para distribuir alimentos.

Fatem sempre carregava consigo sua câmera. “Eu preciso continuar e devo documentar tudo. Para estar nesta história. Para ser eu.” O objeto é um instrumento que parece trazer mais sentido à sua realidade e um exercício constante de olhar para sua realidade. Entre as imagens das chamadas telefônicas, são exibidas em tela cheia diversas fotografias de Fatem, que, graças à relação com Farsi, ganhou a oportunidade de compartilhá-las com o mundo através do cinema e não acabar soterrada com sua história e sua arte em Gaza.

Nota

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  • Jornalista carioca, editora e crítica de cinema. Tem foco de interesse e pesquisa em cinema de gênero e feito por mulheres.

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