2º Cine dos Campos – Festival de Cinema de Ponta Grossa | 2025
O Festival
Passados três anos, o Cine dos Campos retorna à cidade de Ponta Grossa, Paraná. O discurso emotivo e pessoal que fiz para a cobertura da primeira edição se repete aqui, mas com mudanças significativas, muitas delas, certamente, impulsionadas pela existência do festival.
Com mais de 375 mil habitantes, o município tem apenas 4 salas de cinema ativas dentro de um shopping, exibindo sessões que muito raramente fogem do circuito comercial. Ou seja, segue-se a lógica de consumo do produto cultural estrangeiro em um país que ainda é “incapaz” de discutir a regulação dos streamings e a cota de telas. Mas, o que hoje nos traz esperanças cinéfilas é o surgimento do Cine PG, cinema público inaugurado em meados deste ano. O prédio histórico antes chamado de Centro de Cultura já foi sede do 1º Cine dos Campos e novamente hospeda o evento com renovada estrutura de alta qualidade. Finalmente temos um espaço adequado para ver filmes alternativos e de graça, algo que deveria ser comum Brasil afora.

Se em 2022 o cenário político era obscuro, ainda com a presença de acampamento bolsonarista em frente ao quartel da cidade, agora o setor cultural consegue respirar com certo alívio. Mesmo que longe do ideal, políticas públicas têm sido instauradas para fomentar o cinema nacional, ao ponto de o Cine dos Campos não ser o único festival de Ponta Grossa em 2025. No início de junho aconteceu o Festival Araucária dos Campos Gerais, com a circulação de produções locais.
Fato é que essa cidade anseia pela sétima arte, e se prova em cada festival, videoclipe, filme ou cineclube que se faz em terras princesinas. Contra todo vento conservador que sopre por aqui há uma juventude engajada em fazer da cultura o meio de luta pela representatividade que lhe é de direito, o que é visível pela curadoria desta segunda edição do Cine dos Campos.
Nós do Coletivo Crítico seguimos ressaltando a importância em dar visibilidade a pequenos festivais cinematográficos que acontecem pelo país, e que mostram ao povo brasileiro a arte que dele mesmo nasce, junto de todas as nossas contradições. São momentos em que outros Cinemas são possíveis de serem apreciados; são pessoas que acessam obras que talvez nunca tivessem a oportunidade, visto as dificuldades de distribuição que sofremos (sem falar as de produção).
Portanto, é justíssimo citar as pessoas que fizeram acontecer o 2º Cine dos Campos – Festival de Cinema de Ponta Grossa: Talita Prestes (Direção Geral), Gabriel Borges (Direção de Programação e Curadoria), Juliana Brum (Coordenação de Produção), Vik Von Holleben e Jozia Ribeiro (Produção), Gabriel Chemim (Direção de Comunicação), Vinicius Orza e Marina Ranzani (Comunicação), Camila Macedo e Gustavo Pinheiro (Curadoria), Lucas Antunes (Design Gráfico e Identidade Visual) e Ariadne Grabowski (Logo).
Os Filmes
Durante os três dias de programação (28, 29 e 30 de dezembro), foram exibidos 27 curtas-metragens de várias regiões do país em quatro mostras competitivas e uma especial para obras pontagrossenses:
MOSTRA COMPETITIVA:
Ailizarb, de dir: Lobo Mauro, 2025, Rio de Janeiro/RJ;
Como Nasce um Rio, de Luma Flôres, 2025, Salvador/BA;
Dança dos Vagalumes, de Maikon Nery, 2025, Londrina/PR;
Dois Nilos, de Samuel Lobo e Rodrigo de Janeiro, 2024, Rio de Janeiro/RJ;
Entre Aulas, de Marizele Garcia, 2025, Bagé/RS;
Era Uma Vez Diversiones, de Henrique Arruda e Sharlene Esse, 2025, Recife/PE;
Escudo, de Andrey Haag, Santicomcifrão, 2025, São Vicente/SP;
Europa – Me Avise Quando Chegar, de Victor Vieira, 2024, Belo Horizonte/MG;
Habitar, de Antonio Fargoni, 2024, Marília e Vera Cruz/SP;
Incêndio, de Nico da Costa, 2024, Fortaleza/CE;
interior, dia, de Luciano Carneiro e Paulo Abrão, 2025, Sapopema/PR;
Lagoa Armênia, de Leonardo da Rosa, 2025, Taquari/RS;
Linda do Rosário, de Vladimir Seixas, 2024, Rio de Janeiro/RJ;
Mar de Dentro, de Lia Letícia, 2024, Recife/PE;
Maral, de Julia K. Rojas, 2025, Florianópolis/SC;
melancolya canybal, de Henrique Domingues, 2025, Curitiba/PR;
Na Volta Eu Te Encontro, de Urânia Munzanzu, 2024, Salvador/BA;
Nem Sempre, de Leandro Olimpio e Telmo Martins, 2024, Santos/SP;
O Coração Peludo, de Luc da Silveira, 2024, Curitiba/PR;
Parla Italiano, de Rastricinha Dorneles e Caim, 2025, Rio de Janeiro/RJ;
se um dia eu morrer, não me deixe às traças, de Guilherme Sugano, Lucas Longhi e Lui Targa, 2025, Curitiba/PR;
Viventes, de Fabrício Basílio, 2025, Niterói/RJ.
MOSTRA PG EM CENA:
Ai! Sumiram os Brinquedos, de Edson Silva, 2025, Ponta Grossa/PR;
Ainda Aqui, de Nataly Lima, 2024, Ponta Grossa/PR;
Quando Só Restar o Silêncio, de Fernando Robert Haas, 2025, Ponta Grossa/PR;
Sutil, de Tiago Silva, 2025, Ponta Grossa/PR;
Interlúdio, de Paloma da Costa, 2025, Ponta Grossa/PR.
As premiações foram escolhidas por dois grupos de jurados, um para a Mostra Competitiva, formado por Fran Camilo, Marcelo Reis de Mello e Aymê Alves, outro representando a AVEC-PR (Associação de Vídeo e Cinema do Paraná), composta por Cintia Xavier, Alisson do Nascimento e Vinicius Costa (que vos escreve) para a escolha do melhor filme paranaense do festival (10 entre os 27 selecionados). O resultado foi o seguinte:
Melhor Filme: Escudo;
Menção Honrosa: Lagoa Armênia;
Melhor Atuação: Era Uma Vez Diversiones;
Melhor Direção de Fotografia: Linda do Rosário;
Melhor Direção: Dois Nilos;
Melhor Direção de Arte: Parla Italiano;
Melhor Som: Dança dos Vagalumes;
Melhor Filme Paranaense: Interlúdio;
Menção Honrosa (entre os filmes paranaenses): interior, dia.
A curadoria deste ano peca em não trazer filmes da região Norte, por exemplo, mas se esforçou em revelar múltiplos brasis, ligados por alguns fios que conectam as histórias. Muitas obras trouxeram questões de representatividade de comunidades desfavorecidas e vítimas de violências, principalmente as que se refletem do colonialismo e que marcam mazelas profundas na população brasileira. Houve também o apego à memória e ao arquivo, vários filmes foram feitos apenas com imagens de arquivo, ou, então, buscavam no passado as forças para resistência de seus personagens. Ocupar um espaço, seja ele físico e/ou identitário, parece ter sido o mote para a seleção.
Escolhi meus três curtas-metragens favoritos para breves críticas, além do vencedor como melhor filme paranaense, do qual tive a honra de compor a mesa julgadora. Quando ouvir ou ler esses nomes, busque assisti-los:
ERA UMA VEZ DIVERSIONES, de Sharlene Esse e Henrique Arruda

Imagine um cabaré apresentando performances queer e afrontando a pesada censura militar em meados dos anos 70 no Brasil. Esta é a história real do Vivencial Diversiones, grupo teatral olindense que fez sucesso durante quase uma década, desafiando toda repressão da época com espetáculos que abordavam homossexualidade, drogas e política.
Era Uma Vez Diversiones ficcionaliza os relatos de Sharlene Esse, a própria diretora do filme e que fez parte do grupo, quando entrou naquele universo pela primeira vez. Ainda tímida, ela chega e é imediatamente acolhida pelas colegas, que tratam em batizá-la e vesti-la para os shows. Henrique Arruda e Esse moldam essa narrativa com a irreverência de um conto de fadas moderno, onde Sharlene é absorvida por esse mundo mágico porta adentro, o contrário da tristeza e comedimento que trazia do lado exterior. Enquanto ela se entrosa e encontra sua identidade, no palco suas colegas se apresentam diante de dois senhores censores que observam abismados.
O prêmio de melhor atuação não poderia ser mais certeiro, já que todo elenco está magnífico! Além disso, o trabalho de Arte e fotografia são impecáveis em um preto e branco ruidoso, marcando o tempo da história, mas que explode em cores na cena final (a mais bela de todo festival), quando Sharlene aparece em sua plenitude, como uma deusa que eterniza a força mística que foi a existência do Vivencial Diversiones.
DOIS NILOS, de Samuel Lobo e Rodrigo de Janeiro

Se esta edição do Cine dos Campos escolheu contar histórias sobre memória e arquivos, territórios conquistados ou em disputa, Dois Nilos é esse espaço dentro do próprio Cinema. Afranio Vital é um cineasta negro brasileiro que teve sua obra quase toda apagada, sintoma do processo destrutivo que foi a ditadura militar. O que restaram foram os relatos saudosistas do próprio Vital, do tempo em que era reconhecido por seus pares dentro do Cinema Marginal, em que tinha seus filmes exibidos nos agora extintos cinemas de rua do Rio de Janeiro, e algumas imagens.
Samuel Lobo e Rodrigo de Janeiro, que venceram com muita justiça o prêmio de melhor direção no festival, adotam a metalinguagem como processo de montagem do curta-metragem. Enquanto filmam as falas de Vital diante de lugares especiais para ele, deixam também que ele próprio se torne diretor do filme, questionando o desaparecimento provocado de sua cinematografia, o que ainda o leva a colocar em xeque a sua existência enquanto cineasta. “Às vezes eu acho que não existo” – diz Afranio Vital para a câmera.
Como está escrito no cartaz de Dois Nilos: uma vida de cinema não acaba assim. Tem-se a importância que é revisitar arquivos e ressignificá-los para que recuperem a força que lhes foi tirada em algum momento, ainda mais se tratando de arte brasileira feita por um negro.
ESCUDO, de Andrey Haag e Santicomcifrão

A palavra escudo tem o sentido de proteção, àquilo ou a alguém que está fragilizado, ou, então, de esconder o que não pode ser acessado, como um muro, uma arma defensiva. No documentário de Andrey Haag e Santicomcifrão, a princípio, entende-se o primeiro significado do termo: trata-se de evidenciar as ações violentas da polícia na Baixada Santista que há muito são escondidas, a verdade escamoteada pela omissão e pela mentira.
Usando imagens de arquivo vindas principalmente das câmeras corporais de policiais, Escudo é o retrato da violência que só quem vive na periferia sabe o que isso representa. É um longo processo discriminatório que remete aos tempos de colonização e da ditadura, que fazem das favelas um cenário de constante repressão militar. Tudo isso é montado com maestria nos oito minutos de projeção, em ritmo frenético, mas que nunca deixa o espectador confuso, pelo contrário, causa indignação por todo sentido que se constrói ali.
Esse escudo é o mesmo que se vê em propostas da política de extrema direita no país, pretendendo reforçar tais ações violentas e, ainda, vangloriá-las. É inevitável pensarmos no massacre ocorrido recentemente no Rio de Janeiro, orquestrado por Cláudio Castro. Este genocídio soma-se ao que aconteceu na Baixada Santista na operação Escudo/Verão, feita pelo governador de São Paulo, Tarcísio Freitas, matando 84 pessoas.
Por outro lado, o filme Escudo funciona mesmo como um escudo, proteção dos povos e suas identidades, desde sempre massacrados na história do Brasil. O grande vencedor da noite de premiação no Cine dos Campos consegue fazer-se obra de resistência. Mesmo que a violência e as constantes tentativas de apagamentos das subjetividades periféricas estejam, infelizmente, longe de acabar, este documentário é um grito necessário para provar que essas imagens estão aqui, que as pessoas ainda estão aqui e não são invisíveis.
INTERLÚDIO, de Paloma da Costa

Às vezes a memória se faz turva, nas trincheiras do inconsciente, mas que, por isso, despertam medos e traumas. Estes são indissociáveis daquilo que somos ou do que pretendemos ser, são os tormentos da existência humana. Mariana, protagonista de Interlúdio, está diante deste dilema ao lidar com seu passado enquanto precisa enfrentar a pressão que se forma em torno de sua carreira como cantora.
Nas mãos de Paloma da Costa tais conflitos existenciais ganham facetas mais profundas ao destacar a condição feminina da personagem. Certamente as dores psicológicas de uma mulher têm contornos mais ásperos, ainda mais quando envolve a mídia predatória, que no filme é representada por um entrevistador que insiste em trazer à tona aquilo que marcou Mariana em outros tempos.
A cantora, que retorna de um interlúdio dos palcos após o trauma (que não nos é revelado), tem na música sua resistência, invocando uma figura mística em roupa de loba, que, ao mesmo tempo, aflige e expurga a alma. Aliás, a tensão construída no curta-metragem é muito eficiente para esse dualismo real/irreal, devendo-se em grande parte à direção de arte minuciosa e ao design de som.
Interlúdio foi exibido na mostra PG em Cena, juntamente com outros quatro filmes produzidos na cidade de Ponta Grossa, e teve destaque imediato. Competindo também com cinco obras paranaenses das mostras competitivas, foi escolhido pelo júri AVEC-PR como o melhor curta-metragem do Estado no festival, reconhecimento este justificado pela sensibilidade em tratar de tema tão complexo unindo lirismo e capacidade técnica.

O 2º Cine dos Campos – Festival de Cinema de Ponta Grossa é um projeto realizado com incentivo do PROMIFIC (Programa Municipal de Incentivo Fiscal à Cultura), com patrocínio da Belgotex do Brasil e com o empenho de muitas pessoas que lutam pela cultura audiovisual da Princesa dos Campos.
