Cyclone | 2025
O Código Civil de 1916 estabelecia, em seu art. 6º, o rol de pessoas tidas como relativamente incapazes a certos atos da vida civil, como, por exemplo, trabalhar, administrar patrimônio, viajar e contratar. Nesse rol, a mulher casada ocupava o espaço dedicado ao inciso II. O texto da lei era claro: são incapazes, relativamente, a certos atos ou à maneira de os exercer: II. As mulheres casadas, enquanto subsistir a sociedade conjugal. O homem, obrigatoriamente chefe da instituição familiar, precisava autorizar expressamente a esposa caso ela quisesse trabalhar e exercer atos de gestão de sua própria vida, sendo colocada no mesmo patamar de incapacidade dos pródigos e dos menores de 16 anos. Quando eram herdeiras, seus bens eram administrados pelo marido. Esse sistema de absoluto controle formal de vidas femininas vigorou até 1962, quando o diploma foi submetido a reformas.
Que se recorde, ainda, que até 1932, às mulheres não era permitido o voto, portanto, não gozavam do status de cidadãs políticas. É exatamente nesse contexto de institucionalização do patriarcado que viveu a escritora Maria de Lourdes Castro Pontes, mais conhecida como Miss Cyclone, que inspirou e deu vida ao novo filme de Flávia Castro, Cyclone. Na São Paulo de 1919, a modernista, vivida por Luiza Mariani, era uma figura marginalizada, submetida a condições precárias, que escrevia peças de teatro cuja autoria lhe era negada e absorvida por homens, e mantinha um relacionamento amoroso e profissional com um homem casado, o também dramaturgo Heitor Gamba (Eduardo Moscovis). Trabalhava como operária fabril num jornal durante o dia, e era dramaturga à noite. Seu sonho: ir para Paris, com o objetivo de exercer a escrita por tempo integral e existir somente como Cyclone.
De fato, a tradução do sonho de Cyclone é muito mais simplória do que uma viagem somente de ida para Paris. Seu grande intuito era viver plena e dignamente de sua arte. O panorama legal opressor do Brasil daquele tempo sequer lhe dava chances de se aproximar, ainda que minimamente, de uma vida digna: uma mulher, solteira, concubina e pobre era invisível naquele sistema. Flávia Castro adentra o interior dessa mulher em luta de modo muito íntimo, com a câmera sempre próxima, por vezes observadora entre cantos e objetos, que quase a encurrala, de modo que compreendamos que a lógica de seu raciocínio é a arte em si. A protagonista cria e pensa histórias e suas expressões escritas para o teatro vinte e quatro horas por dia. Ser livre para escrever e ter seu trabalho reconhecido é uma questão de sobrevivência.
A quase chegada dos anos 20 é retratada numa São Paulo de espaços internos escuros, com pontos de cor e luz muito delimitados naquilo que remete à paixão da protagonista, o teatro. Se o entorno é quase invisível pelas sombras, o palco e os camarins reluzem em tecidos coloridos e brilhantes. Se o quarto onde ela vive num cortiço é precário, sujo e de aparência úmida, as cortinas, as colchas e almofadas de sua cama serão pequenos recortes do calor teatral em sua casa, paetês sobre os quais ela se abriga.
Cyclone respira teatro também em suas origens. Luiza Mariani encenou Maria de Lourdes nos palcos, e não abandona, na adaptação ao cinema, os traços vivazes de sua interpretação na peça. A atriz expressa uma dramaturga tão intensa quanto à tempestade que escolheu por seu nome, uma presença que determina-se em seu objetivo, em que pese tudo ao seu redor desmoronar, puxar-lhe o tapete, e a vida lhe indicar caminhos mais confortáveis diante de adversidades. Ela escolhe o desconforto e a miséria a ser infeliz em existências que não lhe pertencem.
As abissais diferenças de poderes entre homens e mulheres (e que aprisionam essas últimas) são trazidas por Flávia Castro também na representação das condições que, comparativamente, Cyclone e Gamba, já distanciados pela classe social, exercem o trabalho criativo. Enquanto o personagem de Eduardo Moscovis é o centro da companhia teatral, um homem rico de cuja família é apenas provedor, residente de uma casa iluminada e espaçosa onde tem a oportunidade de criar sem preocupações, a mulher que ele parasita como companheira de escrita precisa cobrir os ouvidos com um lenço para diminuir os sons do trilho do trem que passa ao lado do cortiço e das brigas ensurdecedoras de seus vizinhos. Precisa provar-se o tempo todo para outros homens, obedecê-los para que obtenha seu ganha-pão na fábrica, vê-se obrigada a trabalhar doente e com fome. Precisa, até, da autorização do pai e do marido que não têm para poder viajar. Ainda assim, cria e luta por sua identidade.
A identidade e o seu reconhecimento são direitos que outrora foram negados à Cyclone, tal como o foram a tantas mulheres estrategicamente apagadas de seu tempo. As relações de poder são, hoje, outras. A agência dos corpos e existências femininas pelo patriarcado segue sendo institucionalizada, exercendo suas manobras sob novas roupagens. Para Maria de Lourdes Castro Pontes, as palavras têm o poder de criar galáxias, imensidões que ela deixou para as próximas gerações. É paradoxal como, ao mesmo tempo que escreve sobre a constituição das constituições, felicidade para todos, memória e corpos, não goza de nenhum poder ou fruto de tais conceitos. Ainda assim, foi mulher-vendaval. “Mulher morta, agora viva, respira”, são os ecos de seus sonhos e sua luta perene que Flávia Castro reproduz nas telas enquanto floquinhos de neve caem numa São Paulo cinzenta, e Cyclone encara a câmera, respirando através dos aparelhos que a arte lhe proporciona.
