Mercato: Os Donos da Bola | 2025
O lado oculto do futebol
Tem sido cada vez mais comum, entre torcedores, jornalistas e dirigentes, o comentário de que a “a bola não entra por acaso” (utilizando o nome do famoso livro de Ferran Soriano). E o que isso significa? Que há muita coisa para além das quatro linhas e do que ocorre nos noventa minutos de jogo, e que, se o “extracampo” não funciona a contento, “a bola não entra”, o time não vence.
E o que seria o extracampo? Bom, aí teríamos que falar de uma infinidade de fatores que determinam o (in)sucesso da equipe, entre eles a gestão dos gastos, o trabalho de scout, o relacionamento pessoal entre os jogadores, a relação entre agentes (antes denominados de empresários de jogadores) e treinadores, etc.
Em Mercato, o diretor Tristan Séguéla foca neste último elemento elencado acima, o trabalho dos agentes de futebol, o dia a dia atribulado, intenso e que requer uma vasta gama de habilidades profissionais, no que se destaca a de persuasão, seja para fazer com que o clube aceite uma proposta pelo atleta que representa, seja para convencer a mãe de uma criança de que o futuro profissional do seu filho brilhará em outro país, seja para convencer o atleta boêmio que deve largar a bebida e as noitadas e dedicar-se mais aos treinos.
O filme inicia com uma cena bastante simbólica e que, talvez, possa parecer distante da trama. Vemos uma lagosta em seu habitat natural até o momento em que é pescada e seguimos “todos os seus passos” até ser preparada em uma cozinha, virar um prato de comida e ser oferecida ao cliente final. Há uma notada comparação com o que é a vida do atleta profissional (e aqui falamos do futebol). Desde muito cedo, já é “pescado” por recrutadores que visam moldá-lo, treiná-lo, lapidá-lo até oferecê-lo “melhor preparado” ao mercado, ocasião em que será “comprado” por algum clube, o consumidor final.
Este lado do futebol, obscura a quem dele não faz parte de forma mais direta, é muito interessante. O agente de futebol muitas vezes precisa ser psicólogo, conselheiro, família, contador e até babá de certos atletas. Na vida real, não são poucas as vezes que ouvimos histórias envolvendo grandes jogadores de futebol e suas relações turbulentas (ou não) com seus agentes. Para ficarmos em apenas um exemplo, é impossível, hoje, dissociar a figura do jogador Neymar Jr, que é um craque dentro do campo, e do seu pai/agente.
Traz-se a rotina frenética de Driss Berzane (interpretado por Jabel Debbouze, que aqui sai da comédia e encara um papel dramático), agente de futebol que está em crise financeira e que agencia vários atletas, sendo o principal Mehdi Bentarek (Hakim Jamilli), jogador do Paris Saint-Germain que foi suspenso por problemas com doping e que, embora tenha qualidade técnica, é “problemático” por conta de sua rotina de festas e álcool.
A proximidade do retorno de Mehdi aos campos coincide com a soltura de um ex-parceiro profissional de Driss, Demba (Ismaël Sy Savané), que, ao sair do cárcere, cobra violentamente valores a ele não repassados da transação de Mehdi.
Desta feita, a pressão a Driss vem de todos os lados, seja o seu jogador que está insatisfeito por ter sido negociado com um time chinês; por Demba que exige seu pagamento de trezentos mil euros; pela diretoria do clube de Mehdi que está convencida a deixá-lo entre os reservas durante a temporada inteira e, por fim, pelo pouco tempo que falta para o fim da janela de transferências. Diante disso, Séguéla, ao trazer toda a freneticidade da rotina de Driss, que precisa lidar com todas as situações simultaneamente, parece tentar emular aquele irrequieto cenário de Uncut Gems, dos irmãos Safdie (e não, não estou comparando os dois filmes).
Uma vez bem estabelecido este panorama, o que resta a Driss é buscar incessantemente alguma negociação até o final da janela de transferências envolvendo algum de seus agenciados para que consiga ganhar quantia suficiente para pagar o que deve a Demba e sair da crise financeira que atravessa. E o que vemos, a partir daí, são as maneiras com que Driss tenta, na exiguidade do prazo que possui, fazer a transação que irá salvá-lo, mesmo que tenha que recorrer a trapaças, chantagens e mentiras.
Todavia, também é a partir daí que o filme perde muito da sua força, pois as situações são criadas e posteriormente resolvidas de formas inacreditavelmente simplistas, dissociadas de toda a complexidade que envolve as negociações entre clubes, agentes, família e empresários.
Assim, Driss descobre que o Lille irá efetuar a compra de um atleta chamado Okombo, e isso elimina as chances de Mehdi ser vendido ao clube. Driss vai até a cidade em que mora Okombo e, a partir de uma conversa rápida com ele, o dissuade de ir para a equipe do norte da França, abrindo espaço para que o clube faça uma oferta ao seu agenciado, o que acontece.
Ao chegar em Lille para assinar o contrato que irá salvar o seu agente, Mehdi decide ir para a balada e, nela, se envolve com uma mulher. No dia seguinte, o capitão do Lille vai até o hotel de Mehdi tirar satisfação, a mulher era sua namorada, e ele já havia ligado ao presidente do clube mandando cancelar a compra de Mehdi. E pronto, tudo também acontece magicamente, a transação não ocorre. Tudo volta à estaca zero.
Driss, então, parte com afinco para tentar representar um dos maiores jogadores do mundo, Félix Gassama (Birane Ba), estrela do Real Madrid. Em uma única conversa, o agente convence o irmão de Félix Gassama a traí-lo, colhendo, sem ele perceber, assinatura em uma procuração que confere a Driss a possibilidade de representá-lo por uma semana. A este ponto do filme, não é surpresa a ninguém que o agente consegue uma proposta milionária e que, ao fim, não se realiza.
As maneiras como Séguéla constrói e destrói as tentativas de Driss em fazer seu grande negócio acontecem de forma rápida e inverossímil. Todo aquele cenário que remonta à complexidade do trabalho do agente é desprezado. Familiares e atletas parecem possuir uma ingenuidade tal que Driss, com facilidade, os convence de seus planos, que logo desmoronaram.
Há de se destacar também a tentativa do diretor em criar um drama a partir da relação de Driss com o seu filho Abel (Milo Machado-Graner), garoto de quinze anos, de comportamento unidimensional. Ele é um jovem bastante crítico ao capitalismo, ao tempo que todos gastam com o celular, ao fato do pai só pensar em dinheiro e, mais importante, à exploração daqueles atletas, no que faz um paralelo com a escravidão. Nenhuma dessas críticas é bem desenvolvida, e a forma como permanecem na superfície pode ser até motivo de constrangimento a alguns espectadores.
O desfecho da trama é absolutamente previsível. Na busca da catarse final, o longa-metragem entrega, de fato, apenas o embaraço de quem assiste.
Assim, Mercato parte de um tema bastante interessante e profícuo, principalmente para os que gostam de futebol, mas, na construção do frenesi que é a vida de Driss Berzane, se perde completamente na forma simplista com que conduz a trama, o que orienta o filme a um final que pretende ser catártico, mas não consegue ser nada para além do previsível, que, mesmo tendo esperanças de ser catártico, não emociona.
